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Em
conversa recente com um amigo brasileiro, ele me perguntou, meio
aflito: "Kenny, você, que mora em Londres, talvez possa
me explicar por que sempre que o Brasil ameaça engrenar,
acontece algo para atrapalhar?" "Por aqui", acrescenta
meu interlocutor, "a elite culta gosta de atribuir quase
tudo à famosa teoria conspiratória da história,
aquela que vê crimes, golpes e assassinatos por trás
de qualquer episódio".
Por exemplo (só para lembrar fatos recentes): para eles,
os ex-presidentes militares, Castelo Branco e Costa e Silva, não
morreram, conforme noticiário da época, mas teriam
sido assassinados. Idêntico destino, segundo eles, teriam
tido os ex-presidentes civis, Juscelino Kubitschek e Tancredo
Neves. E por aí vai. A lista dos que não teriam
tido morte natural é enorme.
Uma segunda corrente (esta com mais adeptos na classe média
urbana), sempre de acordo com meu colega brasileiro, atribui tudo
de ruim que acontece ao País à má sorte.
Se o ex-presidente, João Goulart, tivesse, ao menos, tentado
resistir ao golpe militar, dizem os defensores desta linha de
pensamento, talvez hoje o Brasil seria diferente e melhor do que
é. Se Tancredo Neves não tivesse morrido ...Se Ulysses
e não Sarney tivesse assumido ...Se Collor não tivesse
sido eleito, em 1989, nas primeiras eleições diretas,
após três décadas.
Até hoje, cinco décadas após o suicídio
de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, segundo meu interlocutor,
muitos ainda acreditam que o ex-presidente, mais conhecido como
"Pai dos Pobres", não se matou. O tiro no coração,
dizem, teria sido dado por inimigos políticos, infiltrados
entre os serviçais do Palácio do Catete.
Como se deduz disso tudo, o brasileiro e - por extensão
o latino-americano - prefere acreditar mais na ficção
do que na realidade. Para o escritor peruano, Vargas Llosa, na
América portuguesa e espanhola, com perturbadora freqüência,
"a ficção vira realidade". A palavra perturbadora
foi acrescentada por mim para explicitar a atualidade com que
isso ainda acontece, uma vez que, no texto de Llosa, ele se refere
apenas ao choque inicial que os primeiros colonizadores ibéricos
tiveram ao desembarcar no Novo Continente.
Na verdade, é mais fácil ver conspiração
e falta de sorte em tudo para explicar as coisas. Essa visão
simplista da realidade, além do extenso anedotário,
que acompanha a vida dos poderosos, especialmente dos latino-americanos,
é tolerada e até mesmo estimulada pelas elites dominantes,
com a finalidade de desviar a atenção dos governados
das verdadeiras causas que, em geral, estão na raiz dos
inúmeros insucessos históricos ocorridos nessa região.
Em matéria de azar, nada se compara ao que aconteceu aos
argentinos. Nos primeiros anos do século passado, quando
o Brasil contava apenas com pouco mais de três milhões
de habitantes, a Argentina, depois dos Estados Unidos, era a Meca
preferida de milhões de imigrantes europeus.
Por isso, economistas e planejadores mundiais apostavam que ela
se transformaria num dos países mais ricos do mundo, em
duas ou três décadas, em razão do seu imenso
potencial: território extenso, excelente para criar bois
e plantar trigo; população pequena, em relação
ao tamanho do país; quase toda ela de origem européia,
e bastante culta, para os padrões da região.
Cem anos depois, deu no que deu. Hoje, milhares de pequenos credores
europeus e americanos da Argentina querem que o governo venda
a Patagônia para pagar a descomunal dívida externa.
Ninguém poderia imaginar que a voracidade da corrupção
fosse capaz de reduzir o país à situação
econômica atual.
Pobre Argentina! Da posição de maior vazio fértil
do mundo passou para de a maior dívida per capita do planeta.
Na América Latina, espertalhões descendentes de
vice-reis, governadores gerais, servidores do fisco e meirinhos
da Justiça das ex-metrópoles, ainda hoje estão
por toda a parte, mas escondem-se principalmente atrás
de guichês de repartições públicas,
nas palavras do meu colega paulista, "criando dificuldades,
para vender facilidades".
Por exemplo: a emissão de um simples passaporte pode levar
semanas. Mas, se, anexo ao formulário de pedido de tal
documento, forem deixadas duas notas de R$ 50,00 cada, no dia
seguinte, ele estará disponível.
Isso é feito às claras e recebe o nome de taxa de
urgência.
Para concluir, lembro-me de uma história, ocorrida em São
Paulo, em meados da década de 90. Após várias
tentativas, finalmente, a cidade fora escolhida para sediar um
congresso internacional de criadores de histórias em quadrinhos.
No encerramento do evento, um sociólogo brasileiro lançou
um desafio aos presentes.
Como o próximo encontro também seria realizado,
dali a dois anos, coincidentemente, em outra capital latino-americana,
Buenos Aires, sugeriu ele que, até lá, os principais
super-heróis mundiais - Super-Homem, Mandrake, Fantasma,
Capitão Marvel, dentre outros - tentassem melhorar as condições
de vida da América Latina.
A proposta foi aceita pela maioria dos criadores de super-heróis,
que, dois anos depois, teriam de relatar as experiências
vividas por eles, no extenso território, compreendido entre
o México e a Patagônia.
Passados dois anos, e reunidos novamente, desta vez, no Sheraton
Hotel, de Buenos Aires, foram divulgados os resultados das andanças
dos super-heróis pelo vasto território latino-americano.
O primeiro a falar foi o desenhista do Super-Homem. "Infelizmente",
disse, diante de uma platéia, estupefata e curiosa, "as
notícias não são nada boas". Cansado
de prender ladrões, traficantes, fraudadores de colarinho
branco, políticos e toda a sorte de meliantes, e de entregá-los
à Justiça, a qual, pouco tempo depois, os libertava,
sob o argumento de que não havia provas conclusivas contra
eles, "Super-Homem resolveu aposentar-se, mantendo em atividade
apenas o seu alter ego, o jornalista Clark Kent".
"De vez em quando", acrescentou o quadrinista, "ele
ainda envia algumas reportagens do Brasil para o "Planeta
Diário", de Nova York, mas, agora, só se ocupa
de ecologia, biodiversidade e ecoturismo". Sua noiva, Lois
Lane, de acordo com o relato do desenhista, "abriu uma pousada
em Porto Seguro, que é a preferida de ex-hippies, endinheirados
de todo o mundo, que por lá se hospedam, para curtir a
natureza, cheirar cocaína, e fazer experiências místicas
com chás alucinógenos".
"Clark e Lois", esclarece o desenhista, "se dão
bem, embora ele tenha resolvido estabelecer-se num arraial perto
de Canoa Quebrada, não muito longe de Fortaleza. Apesar
da distância, encontram-se, de vez em quando, e vivem o
que se convencionou chamar de uma relação aberta".
Gargalhadas gerais na platéia.
Em seguida, foi a vez do criador do Fantasma falar. "A história
das aventuras do meu personagem por esta região",
relatou o desenhista, "não é diferente da que
aconteceu ao Super-Homem. A misteriosa Diana Palmer, eterna noiva
do super-herói, apaixonou-se perdidamente por um cantor
de tangos, de uma casa de espetáculos, situada em San Telmo,
em Buenos Aires. Hoje, é bailarina, torce pelo Boca, recusa-se
a falar inglês, e mora, com seu 'Carlito Gardel', nos arredores
de Avellaneda".
Passada a nova onda de gargalhadas, um rapaz da platéia,
falando em perfeito "lunfardo", quis saber o destino
do Fantasma, do seu fiel cão, Capeto, e do seu belíssimo
corcel. Desiludido, "nosso super-herói voltou, sob
o pseudônimo de Mr. Walker, para a floresta tropical, no
coração da África, onde foi recebido pelo
seu fiel pigmeu, Guran".
O fogoso cavalo do Fantasma foi visto, recentemente, puxando carroça,
na periferia de Assunção. Quanto ao feroz Capeto,
transformou-se num tranqüilo vira-lata e guia de um cego,
que faz ponto perto do Museu do Ouro, em Lima.
Por sua vez, o Capitão Marvel, após fazer as pazes
com seu arquiinimigo, o Dr. Silvana, vive, hoje, na Costa Rica,
onde, assessorado pelo ex-desafeto, dirige um centro de pesquisa
e de clonagem de primatas superiores.
"Mas, e o Mandrake?", quis saber uma estudante brasileira,
com forte sotaque carioca, presente ao evento. O mágico,
que usava cartola e bengala, e seu fiel escudeiro Lothar, vivem,
felizes, em Salvador, e dão palestras no Grupo Gay da Bahia.
Quanto à belíssima princesa Narda, ex-noiva - para
inglês ver - do ilusionista, cansada de ser assediada, e
de ser chamada de "gostoooosa", "boazuda",
dentre outros elogios impublicáveis, rendeu-se aos encantos
do chefão do Cartel de Medellín e, hoje, é
vista, com freqüência, na rota entre Bogotá,
Cancun, Acapulco e Cidade do México, sempre acompanhada
por, no mínimo, seis guarda-costas.
(*)
Kenneth Goodson, brasilianista e Ph.D. em antropologia
urbana por Oxford , é também voraz leitor de histórias
em quadrinhos. Embora britânico e saudoso dos tempos coloniais,
sempre teve entre seus principais ídolos os nativos Guran,
Lothar,Tonto, Sambo e Touro Sentado. |