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Correspondente
na Europa
O
assunto virou mania aqui, na Suíça: existe ou não
uma identidade nacional helvética? (o nome menos conhecido
dos inventores do relógio-cuco). Para responder a essa
questão, o periódico "Le Démain",
editado em Genebra, realizou uma enquete entre seus leitores e,
depois, estendeu-a a todos os cantões (unidades regionais
administrativas equivalentes a estados, aí no Brasil) do
país. Concluídas as entrevistas, o tema foi debatido
também entre alemães, franceses, austríacos
e italianos.
Antes de analisarmos os resultados, um lembrete aos leitores brasileiros
do SacolãoBrasil: a Suíça é
um pequeno país europeu, cujo território é
do tamanho do Rio de Janeiro, tem pouco mais de seis milhões
de habitantes, dos quais cerca de 500 mil estrangeiros, e seus
cidadãos falam quatro idiomas oficiais: alemão,
francês, italiano e romanche, além de - nem todos,
é claro - inglês e espanhol.
Ou seja, é um país que já nasceu globalizado.
Só esse fato - o de ter nascido globalizado antes da globalização
- já justificaria o debate desse tema.
O suíço é, como disse Euclides da Cunha,
em relação ao sertanejo brasileiro, antes de tudo,
se não um forte, ao menos, um híbrido étnico,
o que, de acordo com as teorias mais avançadas da genética,
o transformará em um ser mais forte do que os que, de diversas
etnias, lhe deram origem. Em outras palavras, os suíços
são historicamente os primeiros clones, aparentemente bem-sucedidos,
de vários povos europeus.
Bem, vamos ao que interessa: qual é, afinal, o tipo físico
padrão do suíço, ou seja, qual é a
cara dos inventores do "fondue?" Os helvéticos
têm o tipo físico dos alpinos; em geral, são
altos, fortes, às vezes gordos, ruidosos e bochechudos;
vestem-se com roupas de cores berrantes, usam chapéus com
penas ao vento, e gostam de chope. Pois é, leitor: se você
pensou naquele clichê das choperias paulistanas, com garçons
e garçonetes, vestidos a caráter, acertou.
Acontece que a região alpina se estende da Baviera, na
Alemanha, até o Nordeste da Itália, passando, antes,
pelo Leste da França e, depois, pelo Oeste da Áustria
e da Eslovênia. Ufa! Como é complicada a geografia
suíça!
É claro que, à medida que as cidades suíças
se aproximam das de seus vizinhos, as influências e características
dos habitantes dessas regiões interagem entre si. E o suíço
típico é o resultado desse "caldeirão"
étnico-geográfico.
Os cidadãos suíços, de acordo com a pesquisa
realizada pelo jornal de Genebra, se acham tão ricos quanto
os alemães (na verdade, são mais ricos, porque a
população do país é muito menor do
que a da Alemanha), tão sofisticados quanto os franceses,
e tão criativos quanto os italianos. Como se deduz, modéstia
não é com eles.
Mas existe uma explicação para isso: mais de 60%
dos suíços falam ou entendem alemão, 20%,
francês; 12% (aí incluídos os cerca de 300
mil italianos radicados na Suíça), italiano; e 2%,
romanche. Os restantes 6% falam ou entendem duas ou mais línguas.
Obviamente, o idioma - principalmente num pequeno país
como este - é fator decisivo na formação
da identidade nacional.
Para entrevistados alemães, também ouvidos na pesquisa,
os suíços são meio austríacos e meio
franceses que falam o alemão; para os austríacos,
os suíços pensam como alemães, comem e bebem
como franceses, e dirigem como italianos. Já, para os peninsulares,
os helvéticos são austríacos e alemães
que acham que falam francês.
Curiosa é a definição dos habitantes do Cantão
dos Grisões, que falam romanche, uma língua latina,
e que talvez sejam os mais suíços entre os suíços.
Eles gostariam de ser italianos, ter a conta bancária dos
alemães, e comer com a sofisticação dos franceses.
O dinheiro, conclui a enquete, é importante para 90% dos
suíços entrevistados, mas não é a
coisa mais importante. Esse privilégio está reservado
para a extensa variedade de queijos (98% declararam comer algum
tipo de queijo diariamente), o que os torna parecidos com os vizinhos
franceses e - quem diria? - com os mineiros, aí do Brasil,
uai.
Qual é o sonho dourado dos suíços quando
se aposentarem? Nada menos do que 70% deles disseram que queriam
morar na Toscana, 15%, na França; e, para a alegria de
Caetano, Gil, Betânia e companhia, 15% dos helvéticos
gostariam de passar seus últimos anos em Porto Seguro,
na Bahia, pedindo a bênção para painho
e mãinha.
Estranhos
esses suíços!
(*)
Werner Ghestaldo é apátrida, morou durante
20 anos em São Paulo e vive atualmente em Lugano, na Suíça. |