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Jornalistas
são convidados para isso e aquilo. Podemos ver o lançamento
de um satélite em lugar privilegiado, um desfile de lingerie
exclusivo para a imprensa, um novo bólido da Fórmula
1 ou até mesmo o novo fecho velcro em sutiãs de
bojo para senhoras da Terceira Idade.
Tiramos proveito disso tudo, claro, com mordomias de reis em troca
de umas linhas em jornais onde trabalhamos. Não poderia
ser de outra forma. É o famoso "jabaculê",
assim conhecido na imprensa brasileira.
Temos sorte, muitas vezes, servindo esses eventos para ganchos
de outras matérias, e mesmo grandes furos de reportagem.
E foi o que aconteceu comigo, humilde brasilianista, colunista
do jornal Daily Weekly , em Iowa, Estados Unidos.
Indo ao lançamento de um novo Airbus, se me deparei num
grande hangar com o avião novo do Presidente do Brasil,
em face de ser negociado para sua melhor comodidade em longas
viagens.
Estava lá, estacionado, com as cores da Força Aérea
Brasileira, o nosso "Number One", esperando o depósito
da bagatela de cento e poucos milhões de dólares
, para uso imediato. Todo o interior do imponente aparelho já
está dividido e montado.
Nenhum empecilho me foi colocado quando disse que gostaria de
conhecê-lo por dentro.
Um luxo, por assim dizer. Muito comprido, é dividido em
ministérios, como na Esplanada de Brasília. Claro,
sem nenhuma comunicação entre um compartimento e
outro, com paredes à prova de som para melhor privacidade
dos companheiros ministros. Suítes bem decoradas, Internet
e, em cada uma delas, um completo bar, onde se notam garrafas
de "poire", quiçá em homenagem ao saudoso
Ulysses Guimarães.
Mais à frente, uma máquina esquisita e comprida,
que fiquei sabendo ser um torno, com o qual o companheiro Presidente
mataria o tempo e o tédio em longas viagens internacionais,
fazendo arruelas decorativas de metal dourado com as quais presenteará
Chefes de Estado de países visitados.
Todo o corredor é decorado com fotos de companheiros que
acompanharam o Presidente Lula em sua trajetória, nada
meteórica, até o mais alto posto da Nação,
não faltando nem mesmo fotos da Primeira Dama e da sua
cachorrinha.
Uma sala de som, mais adiante, mostra uma coleção
de CDs de toda a música sertaneja brasileira, menos de
Chitãozinho e Xororó, que eram os preferidos de
seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
O cinema, com 30 lugares, contém uma estante com todos
os filmes de Mazaroppi e -pasmem- a versão colorizada do
"Encouraçado Potemkin" (coisa do companheiro
José Dirceu, fui informado depois).
Em cada banheiro, um vomitório, com uma máquina
fragmentadora de papéis que darão fim imediato aos
secretos e temidos discursos de improviso do Presidente.
A sala de imprensa, com inúmeros notebooks, fizeram corar
minha Smith-Corona 1956. Um lugar especial era reservado ao redator
de Gafes da Presidência.
A biblioteca vazia, para meu espanto, - mas nem tanto - com apenas
um exemplar do "Como fazer amigos e influenciar pessoas"
de Dale Carnegie, e a última tese de Marilena Chauí,
intitulada "A Estratégia e Importância do Pigarro
Anônimo na Platéia Durante Palestras Sociológicas".
A cabine de comando, cheia de relógios e luzes, com assentos
reservados para o ministros Palocci e José Dirceu, que
terão aulas de pilotagem na própria indústria
aeronáutica, não permite espaço para mais
nenhum companheiro.
Minha pergunta sobre uma sala fechada com cadeados, fez corar
o funcionário que me acompanhava: "Era para ser o
salão de jogos, um lugar para o bingo e caça-níqueis",
cochichou ele. "Deu zebra e estamos pensando em transformá-la
em" solitária "para assessores suspeitos e mal-agradecidos".
(*)
Stan O. Laurel publicou originalmente este artigo no
"Daily Weekly", de sua cidade natal em Iowa. O texto
chegou ao conhecimento do governo brasileiro, que cancelou o convite
ao brasilianista para o vôo inaugural do novo avião
presidencial. |