O sorriso do dragão

Li, recentemente, na revista "The Economist", aqui, em Londres, duas reportagens que me deixaram duplamente preocupado: por ser britânico e meio brasileiro, digamos assim, na qualidade de brasilianista. A primeira delas refere-se ao declínio do inglês, nas próximas décadas; a segunda informa que há, hoje, em poder de investidores e poupadores asiáticos e dos chamados "tigres" dessa região (Taiwan, Malásia, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Hong Kong e Coréia do Sul), nada menos do que US$ 2 trilhões, à espera de boas oportunidades para serem aplicados.

Um detalhe, antes de analisar esses dois fenômenos: em 1997, portanto, há sete anos, esses mesmos "tigres" asiáticos desencadearam uma crise financeira internacional, em razão da passagem de Hong Kong, ex-colônia britânica, para a administração chinesa, que atingiu a Europa, os Estados Unidos, o Japão e até mesmo a América Latina e África. Ou seja, em menos de uma década, as economias daqueles países do Sudeste Asiático já estão plenamente recuperadas e esbanjam dinamismo.

Só para efeito de comparação: Brasil e Argentina, também conhecidos como "tigres" latinos, "patinam", sem conseguir sair do lugar, desde 1985. O México, o Chile e a Costa Rica, os demais "tigres" latinos, também enfrentaram crises nas duas últimas décadas, mas saíram-se bem melhor do que brasileiros e argentinos.

Mas, voltemos ao declínio do idioma de Shakespeare. A reportagem do "The Economist" começa assim: "Adivinhe, leitor, qual é a língua mais falada no mundo, e com o maior número de estudiosos, fora de seu país de origem, em franca expansão?" "Se você respondeu que é o inglês, sorry, leitor', você está redondamente enganado", acrescenta, em tom de provocação, o texto da revista.

Existem, segundo o articulista da revista inglesa, duas línguas mais faladas do que o inglês: o mandarim, que é entendido por nada menos do que 1,5 bilhão de pessoas, além de cerca de 300 milhões de asiáticos (nipônicos, coreanos, filipinos, tailandeses, cingapurianos, indonésios e malaios) que já têm o idioma chinês como segunda língua; e o indiano (que tal como o mandarim é uma língua franca para os cerca de 1 bilhão de habitantes da Índia).

Como, na Ásia, vivem hoje dois terços da humanidade (quatro bilhões de seres humanos), não é difícil imaginar que, até 2050, o mandarim será falado ou entendido por pelo menos dois bilhões de pessoas; e o indiano por, pelo menos, 1,5 bilhão de seres humanos. Daqui a quatro décadas, a população do planeta será de 7,5 bilhões a oito bilhões de habitantes, dos quais cinco bilhões viverão no continente asiático.

Deixo, aqui, um conselho a europeus, norte-americanos, latino-americanos, russos, africanos e árabes: esqueçam o inglês. Peçam a seus filhos e netos que comecem, desde já, a estudar mandarim e indiano.

E, conclui a reportagem da "The Economist": de cada quatro produtos fabricados no mundo um é chinês e de cada oito um é indiano. Em 2050, o PIB chinês deverá ultrapassar o PIB americano, que hoje é de US$ 7,5 trilhões.

Moral da história: a língua da globalização econômica não é o inglês, como acreditam os americanos, mas o mandarim.

Talvez, por isso, os chineses pareçam estar sempre sorrindo enigmaticamente para seus interlocutores. É o sorriso do dragão!

Quanto à segunda reportagem, que trata do excedente de US$ dois trilhões, nas economias asiáticas, para investimentos em qualquer lugar do mundo, a revista calcula que a metade desse montante será aplicada na China, no Japão, na Indonésia e na Índia, ou seja, não sairá do continente asiático. A outra metade irá para a Europa Ocidental e para os Estados Unidos.

"É óbvio", conclui o articulista, "que se Brasil e Argentina tivessem governos, capazes de transformar suas potencialidades em oportunidades de negócios, pelo menos um trilhão de dólares seriam investidos nesses dois países".

Para encerrar, vou contar uma anedota, muito em moda, nos círculos acadêmicos e empresariais londrinos. Um dia, Deus amanheceu chateado com os seguidos desmandos dos políticos dos principais países da Terra. Chamou toda a corte celestial de conselheiros e, em tom grave, anunciou-lhes: "Convoquem uma reunião com os principais líderes mundiais para amanhã". E assim foi feito.

Sem meias palavras, Deus foi taxativo: "Chamei vocês todos para lhes dizer que resolvi acabar com tudo. Em 24 horas, toda a criação na Terra será destruída. Avisem seus governados para que se preparem. É só".

Desolados, os líderes voltaram a seus países e convocaram redes de rádio e de tevê para anunciar a decisão divina.

O primeiro foi Bush. Ele disse aos americanos que tinha duas noticias, uma boa e outra ruim. A boa: "Deus existe, estive com ele, embora nós já soubéssemos disso por meio de informes secretos da CIA. A ruim: em 24 horas, o sonho americano terá acabado".

O segundo foi Fidel Castro. "Tenho duas notícias ruins para vocês", anunciou "El Comandante": "a primeira é que Deus existe, eu mesmo estive com ele; e a segunda é que, em 24 horas," nossa revolução socialista não existirá mais".

O terceiro foi Lula. Emocionado, disse, em tom solene, pela tevê: "Companheiros e companheiras: tenho duas ótimas notícias para vocês. A primeira é que eu sou enviado de Deus. E a segunda é que, em razão disso, todo o programa do PT, a começar pelo fim da miséria e do desemprego, será cumprido, nas próximas 24 horas".


(*) Kenneth Goodson é Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, brasilianista e autor de diversos ensaios, dentre os quais "O Futuro Sorri Amarelo".
(**) Colaborou neste artigo o correspondente e diplomata chinês Lin Py.