O bingo e o meu amigo Lau

Quem é aposentado e já tem certa idade, como eu, sabe como o dia da gente costuma ser chato e comprido, sem ter nada para fazer. Meu vizinho, Estanislau, que a gente chama de Lau, tem 78 anos, é viúvo e meu amigo de mais de 40 anos. Nos últimos dois anos andamos discutindo muito porque o Lau não saía dum bingo que tem aqui perto. Ele dizia que se divertia muito lá, encontrava gente nova para conversar e de vez em quando faturava um dinheirinho.

O que não contava é que perdia mais do que ganhava, e logo ele, que ganha pouco mais de 350 reais como aposentado. Então eu tentava tirar ele de lá, mas não conseguia. Sem faltar, terça e quinta o Lau ia bem cedo pro bingo, todo arrumado, bem vestido, de terno e gravata. Isso me intrigou e um dia resolvi chegar lá de supetão pra ver o que acontecia. Não é que ele estava abraçado com uma senhora aí dos seus 60 anos, até que ainda bonita, e de cabelos pintados, os dois jogando bingo. Pensei cá com meus botões: será que o Lau arranjou uma namorada, com essa idade? Velho malandrão, não é?

Eu não deixei ele me ver e acabei ficando feliz e pensei que se por um jeito era ruim ele gastar o pouco dinheiro que recebia, tinha o lado bom, ele arranjou uma companheira. Por falar nisso, eu soube que muitos idosos e aposentados iam ao bingo para passar tempo e também conhecer pessoas e conversar. Era o lado bom da jogatina, até que o governo fechou tudo e deixou muita gente sem ter o que fazer.

Mas antes do bingo fechar, o Lau de repente parou de ir lá, e eu estranhei muito aquilo. Então passei um dia pelo bingo fechado e vi a mesma mulher na entrada, e ela vestia uma espécie de uniforme e eu cheguei perto e estava escrito o nome do bingo no bolso. Achei esquisito e fui conversar com o Lau, que andava triste e não aparecia mais no bar pra jogar truco com a nossa turma. Ele acabou se abrindo comigo e disse que conheceu ela no bingo, ficaram amigos e começaram até a namorar e jogavam juntos quase todo dia. Aí, um amigo do Lau contou uma coisa que acabou com tudo. A tal mulher já tinha namorado mais de dez aposentados e não passava de uma malandrona, pois trabalhava para o dono do bingo e o papel dela era fingir que gostava deles só para gastarem dinheiro por lá. Fiquei muito triste pelo que fizeram com o meu amigo Lau, que jurou que nunca mais na vida vai jogar.Aí então me lembrei daquele velho e sábio ditado, que diz que há males que vêm pra bem.