Funcionário público de
Brasília sofre ataque e
fica dois dias morto
na mesa de trabalho


Por Vera Lisa Douteux
da Equipe de Arquivistas

Waldomiro Dirceu Palotti, funcionário do setor de Contas a Pagar e Receber, do Ministério da Economia em Brasília, teve um fulminante ataque cardíaco na sexta-feira,ficou 36 horas morto em sua mesa de trabalho e ninguém percebeu. Quem descobriu o corpo, um dia e meio depois, foi a faxineira da seção, que na manhã de segunda-feira estranhou o fato de Waldomiro ficar imóvel por vários minutos, enquanto ela fazia limpeza em uma mesa próxima.

"Já estou acostumada com muita gente da seção que tira uma soneca depois do almoço e dorme a tarde inteira, e foi por isso que não percebi o que tinha acontecido logo que cheguei", disse a faxineira Maria Bentes Gonçalves.

Chocados com a morte de Waldomiro, vários colegas que trabalhavam na mesma sala disseram que ele era um homem quieto e discreto, que não conversava muito e trabalhava mais do que todos, quase sempre fazendo serão até bem depois do expediente da repartição terminar.

"Meu Deus, que tragédia", disse chorando Dirce Fagantini, subchefe da seção. "Vai ver que o Waldomiro já estava morto quando fomos todos embora na sexta-feira. Como é que ninguém percebeu isso?"

Segundo a faxineira, o corpo estava ereto na cadeira com a cabeça caída no peito o que, segundo ela, dava a impressão de que estivesse descansando e cochilando. O legista deu como causa da morte um fulminante ataque cardíaco.

Excesso de trabalho

Waldomiro tinha 49 anos e há 25 trabalhava no Ministério da Economia, segundo Dirce, mas em todo esse tempo fez poucos amigos íntimos na repartição e ninguém sabia muita coisa sobre sua vida pessoal. "Segundo sua ficha, ele nunca se casou e morava sozinho num pequeno apartamento perto daqui", ela contou. "Ainda na semana passada, eu conversei rapidamente com ele sobre assunto de trabalho e não notei nada diferente. Ele estava tranqüilo e chegou até a comentar comigo esse escândalo do bingo, brincando que tinha o mesmo nome do homem envolvido na história e estava com medo de ser acusado também. De repente,a gente toma conhecimento desta tragédia".

"A nossa sala é muito grande, onde trabalham mais de 60 funcionários, e passamos dias sem conversar com alguém que está no outro extremo", explicou Adamastor Budino, chefe da repartição.

"Muitas vezes, quando temos bastante trabalho, alguns funcionários na seção gostam de tirar uma rápida soneca, na maioria das vezes sem deixar a sua mesa. Pode ser que tenha acontecido isso com o Waldomiro e os colegas imaginaram que estivesse descansando para fazer hora-extra, como sempre acontecia" , explicou Budino.

Maria Gonçalves, que trabalha na repartição há 25 anos como faxineira, estava emocionada com a morte de Waldomiro, mas acabou deixando escapar um comentário irreverente sobre o que aconteceu: "É a tal coisa, pra que trabalhar demais? Ninguém vai notar mesmo".