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Colunista
do jornal Weekly News, de Porkville, Iowa, escrevo sobre
o Brasil com meus leitores permanentemente duvidando que esse
país exista.
O aparecimento de alguns brasileiros por aqui - eles estão
pelo mundo todo - deu-me alento para provar isso.
Em vão, tentei entrevistar alguns deles. Clandestinos,
entraram ilegalmente pela fronteira com o México.
Descobri que saem todos de Governador Valadares, Minas Gerais.
E me lá fui para Minas, com a kombi verde-abacate da Associação
Internacional dos Brasilianistas, comprada a preço de banana
no Ceasa de São Paulo.
Claro, meu amigo Kenneth Goodson, brasilianista inglês,
foi junto. Imagine se ele iria perder uma oportunidade dessas.
A impressão que tivemos foi a de uma cidade fantasma, como
as que se vêem no Velho Oeste americano.
Para saber a razão de tal êxodo, procuramos o prefeito.
Tinha fugido para os Estados Unidos. O vice-prefeito também.
E toda a Câmara de Vereadores havia acabado de sair em um
ônibus em direção à minha Pátria
Mãe.
O hotel, vazio. O senhor de certa idade da portaria, excitado
por receber americanos - que eles adoram - propôs que, em
nossa saída, o levássemos, oferecendo-se para carregar
minha Smith-Corona 1956.
Para nossa surpresa, numa esquina da cidade, um rapaz sentado
em uma cadeira com um bloco e caneta na mão. Perguntado
sobre a razão de sua permanência, quando todos estavam
indo embora, respondeu que escrevia contos. "Alguém
tem que ficar para escrever contos", disse. "Mineiro
ou foge para os Estados Unidos ou escreve contos. Não temos
outra saída".
Resolvemos, então, eu e Goodson, o brasilianista inglês,
entrar clandestinamente nos Estados Unidos.
Depois de um vôo de 18 horas, junto com 30 mineiros, espremidos
em um avião sem placa - e mais outro tanto num ônibus
caindo aos pedaços - chegamos à fronteira com o
México.
O sombrero e o poncho nos custaram 50 dólares. O aluguel
de um bebê, que poderia amolecer o coração
empedernido do guarda da fronteira, ficava em 150 dólares.
Um mexicano bigodudo recebia dez dólares para apanhar cada
criança atirada de volta sobre a cerca de arame farpado.
Atravessamos a fronteira na noite escura e seguimos em fila por
uma trilha. Num silêncio total, Goodson, o brasilianista
inglês, embalava o bebê envolto em panos, já
que não teve a coragem de atirá-lo sobre a cerca.
De repente, holofotes e gritos. Havíamos sido apanhados.
No posto de fronteira, o interrogatório. Choros e lamentações
dos mineiros, apartados para serem repatriados.
Minha vez: "I'am an American citizen, uai!", eu disse
tranqüilo.
Nada adiantou.Fui posto para fora de meu próprio país.
Havia pegado, nos três dias passados em Governador Valadares,
o inconfundível sotaque mineiro.
(*)
Stan O. Laurel domina 12 idiomas, nos quais escreve
e fala sem qualquer sotaque, com impecável correção.Mas
confessa que foi alegremente surpreendido com o sotaque de Minas,
que decidiu incorporar definitivamente à sua língua-mãe. |