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Para
quem não se lembra, as palavras "Cucurrucucu, paloma..."
costumam dar início à entrada triunfal de oito ou
dez cantores mexicanos, com aqueles chapelões enormes,
tocando frenéticas guitarras. Isso, em geral, acontece
quando você está num restaurante típico, lá
na terra de Pancho Villa, ou em qualquer outra metrópole,
como, por exemplo, Los Angeles, Paris, Londres, ou Nova York,
em companhia de uma agradável e, às vezes, também
linda, convidada.
Eles (os mariachis) ficam à espreita de incautos casais
e, quando pressentem o momento em que você se prepara para
dar um beijo inicial, ou para arriscar uma imperceptível
(para os outros) carícia por baixo da mesa, "atacam",
em bando, sem qualquer chance de defesa. Quando você se
dá conta, está cercado deles, cantando, em altos
brados, composições do tipo dor-de-cotovelo. E tome
"Cucurrucucus" e "Cielitos Lindos" na cabeça.
Estava eu com uma linda argentina, com quem me correspondia, há
algum tempo, por correio eletrônico. Ela se dizia apaixonada
pela língua inglesa e pelo, digamos assim, jeitão
dos brasileiros. "I love", confidenciava-me, ao ouvido,
com voz rouca, a superfêmea dos Pampas, o "Brazilian
way of life". Em seguida, punha-se a rir de um jeito tão
escandaloso que eu - um contido britânico - corava as faces,
em excitada vergonha.
Cidade do México, fins de maio de 1999. Era a festa de
encerramento de um seminário, realizado pela Comissão
Econômica para a América Latina e Caribe, mais conhecida
pela sigla Cepal, sobre nações emergentes. Havia,
no evento, participantes de outras regiões como Ásia,
África, Sul do Pacífico e Oceania. Estados Unidos,
União Européia e Japão também tinham
enviado observadores, um deles, meu amigo americano Stan O.Laurel,
que apesar da origem e idade, é fascinado por latino-americanas,
para dizer o mínimo.
Eu, com outros brasilianistas (americanos, europeus e asiáticos),
filiados a uma ONG internacional, especializada em países
do Terceiro Mundo, participava do evento na condição
de observador. Minha pupila chamava-se Beatriz, não a musa
de Dante, mas talvez a de Gardel, já que, quando jovem
(estava naquela enigmática faixa etária entre os
30 e os 40 anos), fora bailarina de tango.
Ia tudo muito bem, eu já planejava as primeiras aulas de
um curso rápido de pós-graduação em
relações interfemurais (desculpe, o ato falho, leitor!),
digo internacionais, quando os "mariachis" cercaram
a nossa mesa. Ela gostou tanto da performance que resolveu juntar-se
a eles, quando começaram a cantar, se não me engano,
alguma coisa do tipo "Jalisco, tu tienes tu novia, que és
Guadalajaaaaaara".
Naquele momento, me ocorreram duas idéias: a primeira foi
a de um terremoto localizado, que seria sentido apenas pelo conjunto
típico mexicano; e a segunda, mais esportiva: a criação
de um jogo, chamado"tiro ao mariachi", uma mistura de
tiro ao pombo com boliche. Funcionaria da seguinte maneira: os
competidores, com espingardas de ar comprimido, ficavam atirando
nos cantores. Alvejados, eles iriam caindo. Ganharia o jogo quem
acertasse o maior número deles.
Passado o momento de raiva, resolvi - por sugestão da leitora
de Cortázar - , brincar de amarelinha com ela, diante das
pirâmides do Sol e da Lua, distantes mais ou menos 30 quilômetros
da Cidade do México. Encerrado o seminário, ficamos
mais uma semana fazendo turismo entre camponeses que lembravam
Emiliano Zapata, mulheres parecidas com Frida Kahlo, e taxistas
enormes, dentro de fusquinhas verdes, com caras de Diego Rivera.
Fomos a Acapulco, uma espécie de playcenter de atores e
atrizes de Hollywood, na década de 60, hoje, com ar meio
decadente; a Cancun, "paraíso" de novos ricos
brasileiros e latino-americanos; Mérida e Taxco, cidade
muito parecida com Ouro Preto.
Quando cheguei à Cidade do México, o que me surpreendeu
não foi a "gentileza", já esperada, do
pessoal que trabalha nos hotéis e nos serviços turísticos,
mas o surpreendente senso de humor do povão. O motorista
de uma van, contratada para levar alguns dos participantes do
seminário para o hotel, por exemplo, quis saber se eu já
conhecia o México. Disse-lhe que aquela era a minha primeira
visita a seu país.
Passados alguns minutos de silêncio, ele nos perguntou (éramos
seis passageiros) se entendíamos a sua língua. Após
a resposta positiva, pediu permissão para contar uma anedota
que, segundo ele, traduzia, à perfeição,
o jeito mexicano de ser. Ficamos todos na expectativa. Após
alguns "cumprimentos" efusivos a colegas, igualmente
perdidos no caótico trânsito local, do tipo "Cabrón",
equivalente, aí no Brasil, a frouxo e candidato a corno,
contou-nos a seguinte história.
"Os senhores devem saber que os mexicanos têm fama
de ser nacionalistas", disse-nos, voltando-se, repentinamente
para trás, para ver o efeito que a informação
nos causaria. "Pois, bem", continuou, "diz a lenda
que um dia Deus enviou ao México um líder, que,
depois de algum tempo, iria se tornar presidente do país.
Até aí nada de novo. A novidade era que essa lendária
figura, prevista nas profecias dos maias, astecas, toltecas etc.,
tinha a missão de reunificar o que um dia havia sido o
México, ou seja, o seu atual território, mais os
Estados americanos da Califórnia, Texas, Colorado, Arizona,
Novo México e Nevada".
Nova pausa, seguida de um olhar para trás. Nós não
perdíamos nada do que dizia, mas, além disso, prestávamos
muita atenção à mímica, às
caretas, à fala, meio cantada, e aos trejeitos, que completavam
e enriqueciam seu discurso. "Eleito presidente", retomou
a anedota, "procurou entender-se, por vias diplomáticas,
com Tio Sam, para que os governadores dos ex-territórios
mexicanos consultassem as respectivas populações,
por meio de um plebiscito, para saber se queriam continuar fazendo
parte dos Estados Unidos ou se, ao contrário, preferiam
formar uma confederação com o México".
"Obviamente", acrescentou o descendente de Montezuma,
"o governo americano classificou a proposta de disparate
lunático. Era a desculpa que o lendário presidente
mexicano estava esperando para declarar guerra aos Estados Unidos.
Reuniu todo o ministério e anunciou o seu desejo de retomar,
pelas armas, o que, séculos atrás, fora parte integrante
do México".
"Mas, senhor presidente", disse o ministro da Marinha,
"temos poucos e velhos navios, submarinos e destróieres,
enquanto eles têm, no mínimo, uma esquadra de 3.500
navios equipados com o que há de mais moderno em tecnologia.
'Nossos marinheiros são mais valentes', respondeu o presidente".
"Em seguida, foi a vez do ministro da Aeronáutica
falar. 'Com sua permissão, senhor presidente, a superioridade
americana no ar é incontestável: são milhares
de jatos supersônicos contra uma centena de aviões
de pequeno alcance'. 'Nossos pilotos serão mais certeiros',
respondeu o presidente".
"Por último, e já desesperado, o chefe do Estado-Maior
informou o presidente de que o Exército mexicano dispunha
de apenas cem mil soldados, mal treinados, contra um contingente
americano avaliado em oito milhões de homens, incluindo
os reservistas".
"A resposta do presidente", completou nosso motorista,
já com cara de quem antegoza uma sonora gargalhada, "foi
incisiva: 'Esse é o único problema, meu caro general:
onde colocar oito milhões de prisioneiros'".
Imediatamente, lembrei-me de uma frase do poeta e escritor Octávio
Paz sobre o seu país: "Pobre México. Tão
longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!"
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em antropologia urbana
por Oxford, brasilianista e co-autor do ensaio "Passarinhos
Não Comem Tortilhas", em parceria com o jornalista
Valdir Dufont, radicado na Cidade do México. |