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Correspondente
na Europa
Domingo
pela manhã, em Lugano, na Suíça de expressão
italiana; meados de janeiro, faz um frio de congelar pingüim.
Preparo-me, após o café da manhã, reforçado
por uma xícara enorme de chocolate quente, para a leitura
dos jornais - a "Gazzeta di Lugano" e o "Der Spiegel",
de Zurique, (não confundir com a revista homônima
alemã) - quando dou de cara com a manchete do jornal local:
"Autoridades cantonais convocam plebiscito para punir arquiteto".
Logo abaixo do título, uma linha fina explica o crime:
a morte de cerca de 20 cisnes, que nadavam no lago do parque municipal
Guido Malatesta.
Calma, leitores. Sei que vocês, aí no Brasil, não
estão acostumados com uma notícia dessas, mas acontece
que esse tipo de assunto é muito comum por aqui.
Explico
melhor: os parques públicos suíços são
bem cuidados, limpos com extrema regularidade, e, para embelezá-los
ainda mais, dispõem de um paisagismo deslumbrante. Tudo
é feito para agradar os ricaços estrangeiros que,
cansados de tanto ganhar dinheiro fácil, e de desviar recursos
do fisco, em seus países de origem, vêm para cá
gozar os últimos e floridos anos de suas vidas.
Acontece que, há dez anos, o conselho comunal (uma espécie
de câmara municipal) local aprovou uma lei prevendo a criação
de cisnes brancos e pretos no lago do parque Malatesta. Por que
cisnes e não outras aves, como, patos, por exemplo? É
que pesquisa, realizada entre freqüentadores do parque, detectou
a preferência por cisnes, devido à altivez e elegância
com que nadam.
Ia tudo muito bem, quando um arquiteto teve a idéia de
iluminar o parque à noite e durante a madrugada. A justificativa
dada e aprovada posteriormente foi a de que, dessa forma, os casais
de namorados - por aqui é comum ver-se casais, de 70 ou
80 anos, apaixonados - teriam sobre o que conversar.
Passados alguns meses, quase todos os cisnes, em razão
da feérica iluminação noturna, não
conseguiam mais dormir o mesmo número de horas, durante
as noites e as madrugadas. Além disso, a ração
que os tratadores colocavam no lago foi dobrada. Resultado: por
volta do meio-dia, viam-se cisnes dormindo, empanturrados, boiando,
ao sabor do vento, que os levava de um lado para o outro do lago.
O excesso de comida e a falta de sono regular foram, aos poucos,
matando alguns cisnes, todos obesos, estressados, e com os respectivos
"relógios" biológicos totalmente desgovernados.
Constatado o problema, o conselho comunal reuniu-se para tratar
do assunto e deliberou condenar o infeliz autor da idéia
a pagar uma multa de dez mil francos suíços. Além
disso, recomendou que ele seja processado por atentado à
beleza e harmonia do lago da cidade. Para a abertura do processo,
todavia, é preciso que o governo do Cantão Ticino,
do qual a cidade de Lugano é a capital, se pronuncie. Por
isso, a convocação do plebiscito cantonal.
A propósito da Suíça, conta-se que, em uma
de suas inúmeras visitas à Europa, Orson Welles,
após percorrer este pequeno país, de Leste a Oeste
e de Norte a Sul, teria dito que a única contribuição
dos helvéticos (o outro nome dos suíços)
ao mundo havia sido o relógio cuco. Quem sou eu para discordar
dele.
(*)
Werner Ghestaldo é antropólogo, filósofo
do cotidiano e advogado das boas, justas e grandes causas perdidas. |