Quanto riso, oh,
quanta alegria!!!

Eu já vi de tudo na minha vida. Meus leitores do "Weekly News", de Porkville, Iowa, são testemunhas de que os deleito com os mais bizarros assuntos. O fato de ser brasilianista, então, os fazem crer que sou um grande ficcionista, e que um país como o Brasil não pode existir.

E eles ainda não sabem que, uma vez por ano, tem o Carnaval. Por quatro dias há um desnudamento geral de corpos e almas. O país afoga como um Ford T velho e todos saem para um piquenique nos acostamentos, que pode ser uma praia, um clube ou todas as ruas disponíveis. O Brasil inteiro sacoleja, requebra. O fio dental, que sempre pensei como higiene para os dentes, adentram em profundezas calipígeas. Sutiãs não os há. Quando muito, uma tira de pano cobrindo bicos intumescidos (controle-se,Stanley) com estrelas, apliques, lantejoulas e purpurinas. Para minha vergonha, confesso que não evito um sorriso de escárnio quando vejo minha santa esposa Mary Ann, em seu toucador, lutando com os fechos de seu sutiã de bojo que sustenta boa parte de seus 120 quilos.

Em sendo assim, por mais pudicos que sejam meus leitores de Iowa, não posso deixar - como jornalista - de narrar a festa mais sem pundonor deste planeta.

Sei que ao desembarcar no Rio serei identificado por digitais, fotografado por agentes federais ,depois de quatro horas na fila do aeroporto e que, certamente, implicarão com minha Smith-Corona 1956.

Depois do vexame, serei recebido com guirlandas, camisetas e mulatas requebrando. Com certeza, no meio delas, Goodson, o brasilianista inglês - ele não perde um Carnaval - tendo nas mãos o inseparável chaveiro de piranha embalsamada que ganhou de uma ianomâmi.

Quase certeza que, na cobertura do baile Gala Gay nos defrontaremos com a indefectível pergunta: qual o nome das "bonecas"?

Meus ombros, arquejados pelo peso da idade, se curvarão ainda mais depois de uma noite inteira carregando uma mulata desnuda , no baile de fantasias do Copa(será que ainda existe?)

Manhãs inteiras serão perdidas para tirar confetes que se grudaram em virilhas, sovacos e outras entrâncias corporais. Mais horas serão dedicadas para tirar Goodson, o brasilianista inglês, com amoníaco sob o nariz, de seu estado de coma alcoólico profundo.

Perderemos óculos de sol e toalhas num arrastão na praia de Copacabana.

Serei expulso do camarote reservado à imprensa no desfile das escolas de samba. O barulho das teclas de minha Smith-Corona 1956 dificultará o entendimento das letras do samba-enredo, alegarão os colegas jornalistas.

Copos de bebidas de bares e boates serão cuidadosamente vigiados, para que neles não caia a pílula "boa noite, Cinderela", evitando que amanheçamos desnudos e pilhados de todos nossos bens.

O filho da governadora, um tal de Garotinho, falará todo o tempo na TV que a violência está por um fio e que os turistas poderão se sentir em total segurança.

De volta para Iowa, com o corpo brilhante de purpurina, limpando o dente com uma tirinha de pano, temo receber a notícia de Mary Ann de que nosso casamento de quase 50 anos chegou ao fim.


(*) Stan O. Laurel, brasilianista e americanista de sólida formação religiosa, não permite que suas crenças interfiram nos momentos de lazer e divertissement. Exemplo disso é que esta será a sua 37ª visita ao Brasil, e sempre durante o Carnaval.