No carnaval, pobre explora rico

No carnaval mais famoso do mundo, que é o brasileiro - ou melhor, o carioca - , como todos os turistas estrangeiros e os nativos estão cansados de saber, vale tudo: o esfarrapado vira rei, o rico vira pobre, o machão mineiro vira gay, as socialites viram domésticas e as pilotos de fogão viram rainhas de Angola. Mas, claro, a subversão de papéis dura apenas quatro dias, de sábado a terça-feira; no máximo, até a manhã da quarta de cinzas. Depois, tudo volta ao normal. Pobre é pobre, rico é rico.

Moderna maneira de manter os miseráveis sob chibata. Eles trocam quatro dias de leão por 360 dias de cordeiro. Mais ou menos como os ingleses fizeram, no século 19, com os trabalhadores das minas de carvão. Para evitar que, na manhã seguinte, embriagados, faltassem ao trabalho, aprovaram uma lei fechando as tavernas às 22 horas. Depois desse horário, só clubes fechados permaneciam abertos. É óbvio que nesses locais jamais pisou qualquer mineiro.

Mas este ano, a coisa promete. Nem foi preciso esperar fevereiro. No final de janeiro, como já virou rotina, o bloco dos feios, sujos e esfarrapados desfilou, sob a orientação do carnavalesco Joãozinho Scola, numa espécie de micareta (carnaval fora de época), na cidade de Mombai (antiga Bombaim, na Índia). Na solenidade de abertura, o ministro da Cultura, Herivelto Bill, à frente do bloco "Filhos de Gandhi", condenou a globalização, que se recusa a estender os quatro dias da "folia de Momo" para nove dias (do sábado até o domingo seguinte).

Os ricos, por sua vez, não deixaram por menos e também aderiram ao carnaval fora de época, realizado, em Davos, na Suíça, do qual só participa a fina flor dos investidores, banqueiros, comerciantes e industriais do planeta.

Esse é o bloco dos bilionários, que, emblematicamente, todo o ano, apresenta sempre o mesmo samba-enredo, as mesmas fantasias e idênticas alegorias. Vários burrinhos puxando uma enorme carroça, enfeitada por folhas de louro e ramos de oliveira, lembrando o Olimpo. À frente dos animais, mas sem que eles possam alcançá-los, enormes e suculentos maços de alfafa, capim e cenouras.

Na carroça olímpica, devassos deuses pagãos disputam os favores de belíssimas "top models", lambuzadas de ambrosia, e banhadas por um chafariz do qual jorra o espumante champanhe francês. É a vida! Como costumava dizer um rico playboy brasileiro, que conheci em Paris, no final da década de 60, com forte vocação para conselheiro Acácio (aquele personagem de Eça de Queiroz, que falava as maiores abobrinhas, mas sempre em tom grave e solene), "é melhor ser rico com saúde do que pobre e doente".

Como o governo brasileiro costuma mandar representantes oficiais para participar desses dois eventos - as duas micaretas - , mais conhecidas como Fórum Social (bloco dos esfarrapados) e Fórum Econômico (bloco dos bilionários), perguntei a um amigo, que é professor de economia da USP, aí em São Paulo, com quem troco e-mails, com freqüência, qual era a finalidade dessa dupla militância.

Ele me respondeu dizendo que há dois grandes blocos no governo: os que querem assustar os países ricos e defensores da globalização, fazendo alianças com nações e regiões menos desenvolvidas, como China, Índia, África do Sul e América Latina; e os que acreditam na reconversão do diabo.

O primeiro grupo aposta que acabará por conseguir vantagens dos mais ricos. Por sua vez, os do segundo grupo acham que o demônio (o capital internacional) não é tão feio quanto parece. Para eles, o grande capital teria se conscientizado de que não é mais possível continuar a exploração selvagem do planeta e, por tal motivo, estaria disposto a criar um novo ciclo de prosperidade, mais equilibrado, e respeitando-se o meio ambiente, em nações mais pobres.

"E você pertence a qual bloco?", quis saber dele.

"Existe um ditado popular, aqui, no Brasil, segundo o qual, depois de velho, o diabo vira monge. E o grande capital", argumentou o amigo, "está à procura de uma boa - e crível - fantasia de monge".

A propósito, lembrei-me da minha primeira visita ao Brasil (ver o Sacolão de janeiro deste ano), em 1965, quando alguns estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia (Fafi), do Rio de Janeiro, me convidaram para assistir a um esquete, no auditório de centro acadêmico, a ser encenado pelo Centro Popular de Cultura. conhecido na época pela sigla CPC, da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Era um sábado à noite. O espetáculo durou uns quarenta minutos, no máximo. Havia uns quatro ou cinco atores, interpretando papéis de figuras importantes da história brasileira; e, no fundo do palco, um coral, formado por cerca de 30 vozes. O título do esquete, se não me falha a memória, era "A Canção do Subdesenvolvido".

Começava, mais ou menos, assim, os atores declamando: "O Brasil é uma terra de amores, alcatifada de flores, sem males, doenças, nem dores...Porém", anunciava um dos atores, dando um salto à frente dos outros. E, em seguida, o coro entoava: "Subdesenvolvido, subdesenvolvido".

A certa altura do espetáculo, os atores contam as dificuldades financeiras do Brasil, logo após a independência de Portugal: "As nações do mundo para cá mandaram os seus capitais tão desinteressados", dizia o coro. E os atores respondiam: "As nações, coitadas, só queriam ajudar, não é?" E o coro, em uníssono, respondia: "Ééééé".

Aí, voltavam os atores, declamando, em ritmo mais acelerado: "A velha Inglaterra não roubou ninguém; país de pouca terra, só nos fez um bem". Entrava o coro, novamente, em ritmo lento: "Um Big Ben, bem bom, bom bem...".

Para governar, diziam os romanos - e disso, convenhamos, eles entendiam - , é preciso pão e circo (panem et circensis, em latim). Acho que, em 1965, o Brasil tinha mais pão do que circo. Hoje, é o contrário. Mas deixemos isso para outra hora. Por que, agora, é carnaval.

Por falar nisso, leitor, quem você acha que vai ganhar o concurso de fantasias da Marquês de Sapucaí: o bloco dos esfarrapados ou o cordão dos bilionários, que este ano terá uma ala especial, formada por foliões americanos barrados nos aeroportos?


(*) Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana por Oxford e autor de diversos ensaios, dentre os quais, "Fazer Filhos - o Carnaval dos Pobres" e, em homenagem a Lamartine Babo, "O Teu Cabelo Não Nega, Branquela, Porque És Ruivinha na Cor".