Um Natal de cão

Eu deveria ter passado o Natal no Iraque. Tenho certeza que, mesmo sobre ameaça de carros-bombas, teria sido mais feliz.

Não poderia, porém, recusar o convite de nosso editor-chefe, para passar as festas no Brasil, no litoral paulistano. Aproveitaria a ocasião para mostrar aos meus leitores do Weekly News, de Iowa, como se divertem os brasileiros nos feriados.Mary Ann, minha santa esposa, felizmente, não veio junto. Tendo engordado um pouco, poupou-me de pagar por três assentos num vôo econômico.

Eu não sabia que a sogra de nosso chefe iria junto. Nem os netos, nem os cachorros, socados todos numa Belina 1987. Antes mesmo de sairmos, ficamos uma hora na calçada de uma padaria da Capital, aguardando meia dúzia de frangos que são assados numa máquina, rolando automaticamente sob o calor de gás.

Finalmente, saímos em meio a uma alegria louca das crianças e latidos dos cães para outros carros parados no semáforo.

Nada a fazer - quando ficamos uma hora e quarenta e cinco minutos na fila do pedágio - pensei onde poderia estar Kenneth Goodson, o brasilianista inglês meu amigo, que iria levar a sogra passear de teleférico na estação de esqui de Gstaad, na Suiça. Quis saltar do carro quando percebi um chiclete de bola grudado nas teclas de minha Smith-Corona 1956 que levava no colo. Pensei em tomar veneno quando a sogra de nosso chefe contou, em resumida meia hora, o sucesso que fez sendo eleita rainha do Clube da Terceira Idade. Fiquei tentado a cortar minha própria jugular quando a esposa de nosso chefe começou uma discussão por causa do esquecimento de uma farofa, que não sei até hoje o que é.

Claro, um pneu furou, causando o maior congestionamento que vi em toda minha vista de jornalista, já que a sogra de meu chefe recusou-se a sair do carro, o que impedia - pelos seus cento e tantos quilos - que empurrássemos o veículo para o acostamento.

Na passagem do primeiro túnel, fiquei surdo repentinamente, tal o número de buzinadas de todos os veículos em marcha lenta. Nem o alarme anti-aéreo de Londres, durante a Segunda Guerra, causou-me tanto pânico.

Um cheiro estranho, no meio daquele alarido, anunciava que o neto menor de meu chefe estava acometido de uma diarréia repentina. Como eu, os cães queriam pular fora do carro e arranhavam os vidros, dando uivos desesperados. Senti uma mão pegando na minha e o sussurro roufenho e lânguido da sogra , em meus ouvidos, dizendo que morria de medo de escuridão.

Enfim, a vista do litoral. Mais umas três horas e estaríamos confortavelmente instalados na casa de praia. Levamos quatro, tendo ficado em outra fila de padaria para comprar a tal farofa.

Eu fedia à diarréia, cachorro e perfume ordinário da sogra. O banho ansiado se tornou impossível pela falta de água. Normal, me disseram, com a descida repentina de quatro milhões de pessoas para o litoral. Também não tinha mais pão, água mineral e cerveja. Normal, disse meu chefe, que assumiu um ar catatônico e nada mais disse depois disso.

Quando fiquei sabendo que repartiria com a sogra um mesmo quarto, eu fugi. Entrei clandestinamente no escaler de um navio cargueiro que estava prestes a sair do porto.

Onde fui parar eu não sei até agora.


(*) Stan O. Laurel, brasilianista americano de Iowa, mas cidadão do mundo, assegura que nada, mas nada mesmo, nem uma temporada no lado pobre de Cuba, se compara à experiência de passar férias em praias brasileiras.