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primeira vez que saí de Londres (oh! se me lembro, e como)
foi em 1965. Meu destino, ao contrário do de outros colegas
de faculdade, era o Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro,
e - sorte de estudante - Copacabana, "princesinha do mar",
conforme dizia certa composição, em voga na época,
contada por um tal de Dick Farney, que eu, ingenuamente, pensei
que fosse britânico, ou, na pior das hipóteses, americano.
Nada disso. Vim a saber, já no hotel, que era brasileiríssimo.
Que azar o de meus colegas daquela época! A maioria seguiu,
em viagem de férias, para a Austrália; alguns, cujos
pais eram mais ricos, foram para Nova York e Miami; e outros ainda
- pobres coitados! - foram para a Nova Zelândia. Voltamos
todos a nos encontrar, em meados de setembro, para o início
do ano letivo europeu. Até hoje, meus colegas, já
respeitáveis senhores, não se cansam de ouvir, pela
milésima vez, as minhas memórias das areias quentes
de Copacabana e dos seres que a freqüentavam.
Explico melhor aos leitores brasileiros: durante as férias
de verão, algumas universidades britânicas, dentre
as quais Oxford, em convênio com entidades semelhantes de
outros países e continentes, mandavam os melhores alunos
para o exterior, numa viagem meio turística, meio curricular.
Ou seja, nos quase dois meses fora da Inglaterra (de fins de julho
a meados de setembro), os bolsistas tinham de elaborar um trabalho
sobre o país visitado, com enfoque para a área específica
de estudos. A minha era economia.
Logo que cheguei ao Rio, a primeira surpresa. No aeroporto, uma
comissão de alunos de diversos cursos da então Faculdade
Nacional de Filosofia (Fafi) deveria estar à nossa espera
(éramos, ao todo, oito bolsistas e dois professores-coordenadores).
Aguardávamos, já com as bagagens, por cerca de meia
hora. Foi quando vieram em nossa direção duas jovens:
uma ruiva, mas não como as nossas ruivas européias
(um tipo de loira, com cabelos meio avermelhados e crespos, que
aí chamam de sarará); e uma mulata da terra, tipo
jacuí.
Pediram desculpas pelo atraso, num inglês macarrônico,
e, candidamente, nos informaram que o encarregado de nos recepcionar,
o professor César Ventura, coordenador do curso de línguas
anglo-saxônicas, tinha desistido de vir com elas ao aeroporto
porque o dia amanhecera lindo e "tinha dado praia".
Esta última frase nos foi dita em português. Eu consegui
entendê-la porque, antes de embarcar, tomara algumas aulas,
em Londres, com uma portuguesa, de Leiria, radicada na Inglaterra.
Claro que ficamos todos estupefatos, mas, antes de chegarmos ao
hotel, já havíamos esquecido o episódio,
assediados pelas duas acompanhantes, que faziam o gênero
"young and wild brazilian females" (jovens fêmeas
brasileiras selvagens). Na recepção, nos disseram
que dali a duas horas viriam, junto com outras colegas, nos buscar
para conhecermos a praia de Copacabana.
Jamais vou esquecer aquele agosto. Tinha acabado de completar
20 anos e, confesso, fiquei meio encabulado no meio daquela multidão
de seios, coxas e bundas bronzeando-se, displicentemente, à
beira do Atlântico. Minha imaginação marinha,
até então acostumada às ondas geladas do
Mar do Norte, só alcançavam as praias e o azul profundo
do Mediterrâneo, de onde, de vez em quando, os pescadores
costumam avistar sereias.
À noite, no restaurante do hotel, enquanto esperávamos
o jantar, o assunto era um só: como era possível
estudar, trabalhar, produzir, fazer algo de útil, enfim,
numa cidade como o Rio de Janeiro. Um dos professores da nossa
comitiva arriscou que, em razão da extensão da costa
brasileira, oito mil quilômetros de praias ensolaradas o
ano inteiro, em breve, o Brasil tornar-se-ia a Meca do turismo
sexual.
Na mesa ao lado da nossa, um nativo, típico carioca esperto,
entendendo as nossas preocupações filosóficas,
informou-nos de que havia muitos lugares (cidades, regiões
e até estados inteiros) no Brasil, nos quais as pessoas,
trabalhavam. E acrescentou: "Pena vocês não
terem vindo em fevereiro para ver o carnaval".
Alguns dias depois, passeando pela avenida que margeia a praia,
chegamos (eu e a ruiva sarará, chamava-se Márcia)
ao Leme, bairro vizinho a Copacabana. Estávamos passando
em frente a um local, que me pareceu um quebra-mar, quando ela
apontou para um velhinho de óculos, que, apoiado a uma
bengala, parecia conversar, em voz baixa, com a consciência.
"Aquele é o Ari Barroso", disse, puxando-me,
com força, para junto dela. Perguntei-lhe se era o autor
de "Aquarela do Brasil". Ela fez sim com a cabeça
e aproveitou a minha momentânea distração
para me dar um beijo, molhado, na orelha, que me deixa arrepiado
até hoje.
Passado meu deslumbramento por Copacabana, tive, é claro,
de fazer algumas chatíssimas entrevistas com professores
de economia sobre o "milagre" brasileiro, que, na época,
estava sendo embalado pela dupla Eugênio Gudin (Fazenda)
e Roberto Campos (Planejamento), apelidado de "Bob Fields",
pelo pessoal da esquerda.
Hoje, quando tento explicar a meus alunos, aqui, na pérfida
Álbion (era assim que os franceses se referiam antigamente
à Inglaterra), a essência do "milagre"
brasileiro, fenômeno ocorrido no período compreendido
entre 1964 e 1979, eles não entendem. Aliás, eu
mesmo não entendo como as brasileiras conseguem em tão
pouco pano (um minúsculo sutiã e um microscópico
biquíni, tipo fio dental) esconder tão exuberante
beleza.
Talvez seja essa a verdadeira essência do milagre (sem aspas)
brasileiro.
(*)
Kenneth Goodson é brasilianista, Ph.D. em antropologia
urbana por Oxford e autor de diversos ensaios, dentre os quais
"Da Impossibilidade de Fazer Qualquer Coisa ao Sul do Equador"
e "O Biquíni e o Ócio Criativo".
Colaborou
neste artigo a correspondente brasileira
da "Caras International", Teresa da Praia.
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