Piores de 2003 vão
receber o nosso
Troféu Touro Brabo

Jornalistas do SacolãoBrasil e convidados, representando vários setores de atividade artística, escolheram no final de dezembro os piores de 2003 na cultura e nas artes do Brasil. Nosso jornal segue, assim, tendência cada vez mais freqüente na imprensa alternativa,sempre atenta às mudanças, ou seja, a de contestar e desmistificar a tradicional e rotineira escolha anual dos "melhores". É o nosso justo reconhecimento a todos aqueles que durante o ano que passou fizeram da nossa vida, e a dos brasileiros em geral, um constante suplício, com suas falsas obras de arte, de pedantismo cultural e colonialista, nada mais que tolices e abobrinhas enganadoras, consideradas por muitos como os melhores do ano. Para premiá-los, criamos o Troféu Touro Brabo, que será entregue anualmente aos que se "destacarem" em todos os segmentos da vida cultural do nosso país. Eis os vencedores de 2003:

Menção honrosa especial

John Zé, pela sua contribuição insistente, porém quase anônima e desinteressada, no plantar, adubar e diversificar as raízes mais autênticas e populares da cultura brasileira, seja no terreno musical, seja no literário ou na poesia regional. E o que quer que seja isso.

Cinema: Miguel Ananaes, que, levando para a tela seus shows e especiais, reciclados e recauchutados, apresentados pela Rede BrasilShow, ajudou a iludir ainda mais público e crítica sobre o que é televisão e o que é cinema.

Menção honrosa: os críticos de cinema , que continuam usando um secular clichê ("não é nenhuma obra-prima, mas agrada"), chamam televisão de "telinha", trocam nomes de astros e diretores e, com o "Cahiers du Cinema" eternamente moribundo, passaram a rezar pela cartilha do 'Moumil ", elogiando até às nuvens os chatíssimos filmes iranianos.

Teatro: Ron Thomas e Afonso Celso Aragonez (empatados), que graças a suas peças experimentais, de impenetrável significado e invencível monotonia, contribuíram para deixar o público em geral cada vez mais distante dos palcos.

Televisão: Zuzu Liberado, Clausto Silva, Camundonguinho e Tchucha, cujos programas de auditório atingiram o que parecia impossível: níveis ainda mais baixos que os do ano passado e aumentaram consideravelmente o número de televisores desligados, mesmo entre o espectador pouco exigente.

Rock: o guitarrista Tony Hellsound, do grupo Have Pity of Our Ears, como triste símbolo de todos os outros e da crescente epidemia de rock brasileiro, uma ameaça e um tormento que parecem nunca ter fim.

Menção honrosa para o colunista Múcio Ribeiro, que esbanja amplo, irrecuperável e precioso espaço de seu jornal, promovendo todo e qualquer obscuro Joe Nobody (Zé Ninguém), de alguma garagem em Dublin, que se diz roqueiro e em breve será mais um atormentando a humanidade com sons do inferno.

Menção honrosa: a libélula, que com sua vida breve, é o símbolo e esperança, entre as pessoas de bom gosto e ouvido mais exigente, dos roqueiros e sua música. Eles grassam a todo instante, mas felizmente não duram muito.

Revelação: A cantora Regina Rita, mais uma cria equivocada da crítica brasileira, que todos os anos incensa jovens intérpretes, não pela voz, de resto, afinadinha, mas por ter mãe e pai famosos. Com isso, formando monstrinhos que, talvez por esforço próprio, poderiam até ser respeitados.

Livros: Prêmio coletivo para Lamberto Eco, Rolando Bartês e Josué Miguel Resnik, entre vários outros, vivos ou mortos, cujos textos, aborrecidos, presunçosos e intransponíveis cipoais, são adotados como lições e exames por professores universitários pedantes, para desespero de alunos que, como seus mestres, não têm a menor idéia do que estão lendo.

Menção honrosa: Os suplementos literários de jornais e revistas brasileiros, cujos editores e colaboradores, eternamente inebriados pelo "vírus acadêmico", pela pseudocultura e por artigos de angustiante monotonia, até hoje não aprenderam a copiar os elucidativos, acessíveis e saborosos similares ingleses e norte-americanos.