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Com
a aproximação do Natal, todos os semblantes se modificam
e as pessoas se cumprimentam sorrindo. Menos Kenneth Goodson,
o brasilianista inglês , carrancudo, bravo com o Presidente
Bush, que estragou o jardim da Rainha Elizabeth num pouso com
o helicóptero. Todos sabem o amor que os ingleses têm
pelos seus jardins. Com seu sobretudo surrado e aquele saquinho
de papel pardo na mão, qualquer carregador de aeroporto
do mundo inteiro sabe que, nele, Goodson carrega sua garrafinha
de gim.
Estávamos chegando ao Brasil para a famosa confraternização
de fim de ano na redação de nosso jornal onde, não
só não somos mal pagos, como não somos pagos.
Mas quem pensa em dinheiro nesta vida aventurosa que levamos em
andanças pelo mundo? É um prazer, com a ajuda das
teclas de minha Smith-Corona 1956, levar, até aos mais
longínquos rincões do mundo, notícias deste
gigante em coma que é o Brasil.
Neste ano que finda, cobri a posse do Presidente Lula, entrevistei
o ministro Gilberto Gil, fui barrado e preso por causa de minha
Smith-Corona 1956 em vários aeroportos, sofri na pele um
seqüestro relâmpago, acampei com os sem-terra e até
participei - para minha vergonha - de uma orgia com ianomâmis.
Mas tenho a consciência tranqüila e nada devo aos meus
leitores do "Weekly News", de Porkville, Iowa.
De economia pouco falo. Deixo a tarefa para Kenneth Goodson, o
brasilianista inglês que não entende como os brasileiros
podem viver sem talagadas de gim, produto importante de divisas
para a Inglaterra.
Mas senti o país crescer nesse meio tempo. Nas poucas ocasiões
em que o presidente Lula esteve no Brasil, o PIB se mexeu como
um urso hibernando em sua caverna. A idéia de matar velhinhos
com mais de 90 anos de fome, suspendendo suas aposentadorias,
foi uma das brilhantes idéias, para tirar do caminho, obstáculos
ao bom andamento do governo. Bancos da Suíça, Cayman
e outros paraísos fiscais, tiveram um lucro fabuloso com
o envio de milhões de dólares, fazendo morrer de
inveja todas as lavanderias chinesas do Brooklyn. A
CIA luta em vão para adquirir a tecnologia dos arapongas
brasileiros que escutam alto e bom som o leilão de sentenças
de alguns membros do Judiciário. Os celulares pululam em
celas de penitenciárias decretando feriados - raros no
calendário oficial brasileiro - dando oportunidade a esse
povo sofrido, uns dias de descanso.
É sempre uma música para os ouvidos chegar ao Rio
e sentir o zumbido de balas perdidas e a cadência morena
dos arrastões nas praias. Transformada em filmes, esta
paisagem maravilhosa ganha prêmios em todo o mundo, menos
em Hollywood, que se recusa a enxergar a beleza desta terra em
transe.
Com a vantagem de saber ler lábios, eu conseguiria vários
furos de reportagens, lendo em bocas de parlamentares brasilienses
coisas que eles não falariam nem em off.
E essa minha habilidade fez-me ler, nos lábios da nossa
especialista em moda, a sofisticada Naomi Springfield,quando adentrei
a redação do SacolãoBrasil, junto com o Goodson,
para a troca de presentes de "amigo-secreto" do Natal,
uma frase que me deixou muito aborrecido: "Quem são
esses dois trapos?"
(*)
Stan O. Laurel, brasilianista e norte-americano tradicionalista,
considera as festas natalinas de Porkville, sua cidade natal,
as mais autenticamente americanas de todos os Estados Unidos.
Mas afirma que, vez por outra, gosta de, perigosamente, passar
o Natal no Brasil. |