É Natal, sem tutu, nem peru

O espírito natalino já tomou conta do comércio aqui em Londres, e - imagino - aí também. Enquanto nós, britânicos, fazemos contas em libras esterlinas, comparando nosso poder aquisitivo com o da Zona do Euro (o continente europeu) e o dos americanos, vocês aí, segundo me contou meu secretário particular, que mora (eufemismo usado pelo povão daqui para dizer que está amasiado) com uma mineira de Governador Valadares, sonham em ganhar do Papai Noel um emprego para o ano que vem.

Pelo que deduzi das cartas recebidas pela mineirinha - meu mordomo não consegue pronunciar o nome dela - , relatadas por James, meu secretário, as coisas aí andam na base do "jingle bells, jingle bells, acabou o tutu; não faz mais, não faz mal, compra com cartão; o juro tá caro, caro pra chuchu, como vou fazer, para comprar o peru".

A propósito, lembro-me de ter lido, ainda jovem, cursando economia em Oxford, uma coletânea de cartas trocadas entre Keynes, Huxley, Virgínia Woolf e Orwell, na qual o primeiro comenta com os amigos (algumas cartas enviadas por Keynes iam com cópias para os outros) o clima do Natal de 1929, em Nova York, no auge da Depressão americana.

"O sonho das pessoas comuns por aqui", Keynes, destaca, meio surpreso, "aparentemente, reduziu-se dos velhos devaneios de grandeza para coisas bem mais simples, como, por exemplo, obter um emprego de Papai Noel e uma garrafa de bourbon (aquele horroroso uísque de milho) para relaxar, em casa, antes de um magro jantar".

Fiquei muito impressionado com o comentário e, desde essa época, passei a acompanhar de perto as idéias de Keynes, que, felizmente, acabaram por influenciar o presidente americano, Franklin Roosevelt, que, alguns anos depois, como todos sabem, lançou o "New Deal", um programa social que tirou os Estados Unidos da grave crise que se seguiu à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.

De lembrança em lembrança, chego a outra, bem mais recente, em agosto passado, num encontro de uma comitiva de ministros e empresários brasileiros com um seleto grupo de investidores britânicos, realizado na City londrina. Após um longo e verborrágico discurso de apresentação do Programa Fome Zero, um dos inúmeros assessores ministeriais anunciou, em tom triunfal, que já neste Natal ninguém passaria fome no Brasil.

Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual o "aspone" ("assessor de porra nenhuma"; a expressão me foi repassada por James, que a ouvia da companheira de Valadares), se não me falha a memória, um tal de Lenine Bakunin da Silva, esperava, ansioso, por aplausos. Timidamente, como é costume por aqui, a platéia bateu palmas durante uns dez segundos. No código cultural dos londrinos, isso significa constrangimento.

Mal as palmas cessaram, ouviu-se, vinda do fundo do auditório, sonora gargalhada de alguém, que me pareceu um caubói do Colorado ou do Texas, elegantemente vestido, de imensa cabeleira ruiva, obviamente sem chapéu, mas calçando lustrosas botas claras, combinando com o terno de linho de cor havana.

"Quer dizer, então", exclamou, em voz excessivamente alta, para nossos costumes, "que vocês vão acabar com a fome no Natal? Isso é bom", prosseguiu, "mas a questão é: o que os pobres e miseráveis vão comer nos 11 meses subseqüentes?"

Achei, tentando "mapear" o seu sotaque malemolente, que estava mais próximo do Mississipi, do Iowa ou de Dakota do Sul. Mas, ele se identificou como sendo do Arkansas (pronuncia-se, não me perguntem por que, arkansó), conterrâneo, segundo suas próprias palavras, do ex-presidente Clinton. Identificou-se como Cícero Skeptic, dono da maior granja de frangos de corte daquele estado.

Fiquei sabendo, após o encerramento do evento, que em seu cartão de visitas, que ele distribuiu rapidamente entre os presentes, como gostam de fazer os americanos caipiras abastados, estava intercalado, entre o prenome e o nome, o apelido "Doubting Thomas", que equivale, aí, a São Tomé.

Da Silva ainda tentou continuar a lengalenga sobre o Fome Zero, mas o criador de galinhas quis saber, pedindo desculpas pela interrupção, se, em vez do Fome Zero, não seria melhor implantar um "New Deal" brasileiro, que, argumentou, poderia, rapidamente, não apenas dar o peixe aos pobres desempregados, mas também ensiná-los a pescar.

A única resposta possível - a qual demonstraria, ao mesmo tempo, o senso de humor, que os britânicos tanto apreciam, e que teria desarmado o insistente caipira americano - seria: "É que nós, brasileiros, não temos um Roosevelt".

Obviamente, não foi essa a resposta dada pelo assessor ministerial, que prolongou por mais alguns minutos a enfadonha palestra sobre o Fome Zero. Diplomaticamente, o diretor da Bolsa de Valores de Londres, uma espécie de mestre de cerimônias do evento, lembrou a todos que já passava das 13 horas e que, por isso, em 15 minutos, o almoço teria de ser servido.

Se você, leitor, imaginou que o criador de frangos do Arkansó não deixaria escapar a oportunidade para encaixar mais uma frase de efeito, acertou em cheio. Da Silva ainda agradecia a atenção dos presentes, quando Cícero "São Tomé" Skeptic foi ao seu encontro para cumprimentá-lo, efusivamente: "Bem", disse-lhe, dando-lhe um tapa nas costas, como se o conhecesse de longa data, "já que não é possível matar a fome dos brasileiros, vamos, pelo menos, acabar com a nossa".

Obviamente, durante o almoço, todas as atenções, inclusive a minha, voltaram-se para Cícero. Ele divertiu a todos quando disse não acreditar que o homem tenha realmente ido à Lua. "Não há dúvida", disse, "que meus conterrâneos enviaram várias naves até o nosso satélite".

Quanto à missão tripulada da Apolo 11, argumentou, "ela foi uma farsa, bem montada". Segundo ele, na foto oficial, divulgada pela Nasa, a bandeira americana, fincada em solo lunar pelos astronautas, dava a impressão de tremular. "Ora, todos sabem que não há qualquer tipo de vento na Lua".

Como se deduz, os caipiras americanos também são bons astrofísicos.


(*) Kenneth Goodson é brasilianista, idealizador do Programa Sede Zero, sucesso até hoje nos "pubs" londrinos, e autor, dentre outros, do ensaio "A Lua é Uma Ilusão de Ótica".