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Brasilianista,
colaborador do Weekly News de Porkville, Iowa, conhecendo
o Brasil do Oiapoque à Marilena Chauí, nunca havia
visitado uma tribo indígena.
E fomos, eu e o colega inglês Kenneth Goodson, que não
mais me largou depois do fracassado encontro de brasilianistas
em Passa Quatro, Minas Gerais - onde não pescamos nenhuma
truta -, conhecer os ianomâmis.
Goodson aproveitava a visita para colher mais dados sobre o desaparecimento
de seu tio-avô, Coronel Fawcett, abatido com tacapes pelos
selvagens por tê-los destratados - como fica bem a um arrogante
colonizador inglês - e cujo desaparecimento do corpo até
hoje é um mistério, tantas décadas depois.
Para minha vergonha, depois de três gins tomados no avião
de carreira, Goodson dizia alto que "índio bom é
índio morto", citando o General Custer (outras fontes
garantem que o autor da frase é o General Sheridan), abatido
por Touro Sentado, nas mesmas circunstâncias.
Um jato Corisco Turbo, pilotado por um índio baixinho de
bermudas, nos levou até a aldeia, nos confins da Amazônia.
Elogiei sua perícia e o bom treinamento dado pela Funai,
mas ele disse que aprendeu a pilotar sozinho e que o avião
era do cacique. Pelo celular, em pleno vôo, ele dizia à
esposa que estava levando o último CD de alguém
chamado Wando, comprado na loja do aeroporto.
Goodson, ainda envolto nos vapores do gim, dizia que não
ia ficar pelado. "Um inglês nunca fica nu diante de
seus semelhante" bradava ele, "a não ser na presença
de sua santa esposa e, assim mesmo, com o seu consentimento".
Levados até o cacique, que exigiu nossas credenciais e
a autorização da Funai, fomos liberados para o trabalho,
depois que um ordenança, recebendo as ordens em perfeito
inglês, confirmou a veracidade dos papéis por rádio-satélite,
com o escritório em Brasília.
O que mais chamou a atenção dos índios foi
minha máquina de escrever Smith-Corona 1956 e a pele-vermelha
curtida de gim do Goodson, logo apelidado de Irmão Ianomâmi
Albino. Um índio adolescente pedia a Smith-Corona 1956
emprestada para passar uns e-mails, já que seu notebook
havia travado. Ia ser uma temporada difícil.
Pedi autorização para visitar uma aldeia vizinha,
toda feita de tendas negras, mas fui dissuadido pelo nosso guia,
dizendo que o cacique gaúcho Stédille era muito
nervoso e não gostava de estrangeiros.
Goodson se enrabichou com umas nativas e passava dias e noites
com elas, nadando nu, tomando uma aguardente feita de mandioca
e pescando, esquecendo-se de seu tio-avô Coronel Fawcett,
dizendo mesmo que ele merecia estar morto e que descansasse em
paz no meio da floresta. Na falta de trutas, eu pescava tucunarés
e martelava as teclas da Smith-Corona 1956 durante as manhãs,
sendo imitado por um pica-pau na floresta, causando grande hilariedade
entre os ianomâmis.
Do cacique, nunca mais ouvimos falar. Fomos informados que ele
passava dia e noite numa sala de bate-papo na Internet, tendo
ficado, assim, noivo virtual de uma esquimó, que o visitaria
em breve.
Findo o trabalho - para desgosto de Goodson, que estava noivo
de três índias e não queria mais ir embora
-, participamos de uma grande festa de despedida.
Fogueiras acesas, miolo de macacos e tartarugas tracajás
foram servidos em pequenas cuias. Outra cuia, passada de mão
em mão, com a aguardente, deixava Goodson mais vermelho
que a bandeira do MST da aldeia vizinha.
Já no avião, de volta para Iowa, laivos de memória
me apresentavam cenas de corpos nus se envolvendo e rolando na
poeira. Para minha vergonha perante Mary Ann, minha santa esposa,
sei que pequei, fora de mim, naquela festa com uma bela índígena.
O piloto índio informou-me que acrescentavam um suco de
cipó afrodisíaco chamado cauim na aguardente.
Além do remorso pelos meus excessos, uma lembrança
me atormenta e me enche de horror agora, a advertência de
um dos nossos guias na selva: "Cuidado, a índia quando
gosta de alguém vai atrás dele até o fim
do mundo".
(*)
Stan O. Laurel, brasilianista, pescador e indigenista,
é bisneto, por parte de mãe, do célebre chefe
apache Cochise e, por parte de pai,
do general George Armstrong Custer, chacinado, junto com seu regimento,
pelos índios sioux de Crazy Horse. |