|
Ser
lúmpen (pessoa desprovida de qualquer tipo de princípio
ético) é um estado de espírito que não
se restringe a classes ou categorias sociais. Para definir o que
é ser lúmpen, palavra alemã que significa,
ao pé da letra, homem trapo, cuja simples menção
deixava Karl Marx, com seu proverbial mau humor, trêmulo
de ódio, tenho de valer-me de alguns clássicos de
todas as literaturas.
Se, para Euclides da Cunha, em Os Sertões, "o sertanejo
é antes de tudo um forte", o homem lúmpen é,
na minha definição, "antes de tudo, um fraco,
um pusilânime, talvez um oportunista". Da mesma forma
que o tango, que, para Jorge Luis Borges, era "um estilo
de vida", o ser ou o estar lúmpen permeia todas as
classes sociais, dos excluídos às elites; todas
as raças, todas as etnias, todos os credos, homens, mulheres,
gays, lésbicas etc.
Não há profissões isentas de lúmpens,
nem continentes ou países. Até mesmo no círculo
polar ártico, foram contatadas, numa expedição
da National Geographical Review, tribos de esquimós e de
lapões adeptos e praticantes daquilo que antropólogos
chamam de ABC do mau-caratismo. Uma série de hábitos
e comportamentos que faria o Macunaíma brasileiro, o herói
sem nenhum caráter, parecer ingênuo.
Até o reino animal registra alguns comportamentos desse
tipo, em ambientes nos quais a sobrevivência não
está diretamente ameaçada. Recentes pesquisas, feitas
por biólogos de universidades americanas e européias,
por exemplo, não deixam dúvidas sobre a insuspeitada
extensão do universo lúmpen: aves e répteis
põem seus ovos para serem chocados por fêmeas de
outra espécie; alguns predadores se confundem com o habitat
das presas para surpreendê-las. E assim por diante.
Mas voltemos ao homem lúmpen. Nem Karl Marx nem meu conterrâneo
Aldous Huxley, em sua famosa trilogia Admirável Mundo Novo,
O Macaco e a Essência, e A Ilha, dão a ele qualquer
importância. Na verdade, ambos o subestimam.
O primeiro classifica-o de pernicioso, pois a absoluta ausência
de valores e o cinismo de seu comportamento poderiam contaminar
a consciência revolucionária do proletariado. Já
o escritor britânico (para não irritar galeses, escoceses
e irlandeses do Norte), reserva aos lúmpens e a todos os
homens e mulheres de QI baixo (atenção, revisor:
é quociente de inteligência e não quem indicou)
as tarefas do trabalho pesado e da reprodução.
Com todo o respeito a Huxley, acho que ele cometeu dois erros
essenciais: nem todos os lúmpens têm necessariamente
QI baixo, e o exercício da reprodução, que
a Bíblia chama de fornicação, nem sempre
é tarefa desagradável. Ao contrário.
Outro britânico (desta vez para não irritar ingleses,
galeses e escoceses), Oscar Wilde, entendeu melhor o jeito lúmpen
de ser, quando disse: "Estamos todos na sarjeta". Em
seguida, aparentemente, arrependido, acrescentou: "Mas alguns
olham para as estrelas".
Nada deixa o lúmpen mais feliz do que o nivelamento por
baixo da humanidade, ou seja, a sarjeta. Essencialmente prático,
o homo lúmpen não têm interesse por estrelas,
planetas, cometas, satélites ou asteróides. Usa
binóculos, lunetas e até telescópios para
finalidades menos nobres do que perscrutar galáxias. Devassar
a intimidade de moradoras, de preferência jovens e gostosas,
de prédios vizinhos, é um dos seus hobbies prediletos.
O lúmpen não resiste a tentações.
E, aqui, novamente valho-me de Oscar Wilde, que costumava gabar-se
- não se sabe se em tom de brincadeira ou sério
- de não resistir a nenhuma tentação. De
qualquer forma, não lhe faltava coragem ao admitir abertamente
a sua porção lúmpen. A maioria das pessoas
hipocritamente a renega.
O cinema, mais que a literatura, desvendou o surpreendente mundo
lúmpen. Quem não se lembra do tio Tita, aquele que
moldava o cabelo com uma meia de mulher, em "Amarcord",
de Fellini; que, como dizem vocês, aí no Brasil,
só comia, bebia, dormia e ... Por falar nisso, no mesmo
filme, há outro tio, que vive internado, e que, quando
vai visitar a família, sobe nas árvores e fica gritando:
"Voglio una donna" (Quero uma mulher).
E o avô que se perde em meio à neblina de inverno,
no quintal de sua própria casa. Encontrado pelo neto, talvez
Fellini garoto, o velho, de repente, se lembra de que, no seu
tempo, ele óóó (faz um gesto empurrando os
braços para frente e puxando-os em seguida para trás,
repetindo várias vezes), dando a entender qual era a sua
atividade predileta quando jovem.
Tais personagens fellinianas podem ser classificadas como lúmpens
romântico-familiares. Toda a família tem ao menos
um.
Bem mais amargo do que Fellini, Ettore Scola, outro cineasta italiano,
- será que para ser politicamente correto eu teria de dizer
cidadão greco-romano descendente? - , nos mostra uma radiografia
minuciosa e completa de uma numerosa e miserável família
lúmpen, em "Feios, Sujos e Malvados". O filme
é um tratado sobre o ser, o sentir e o agir do lumpionato.
Esses são o que podemos chamar de lúmpens realistas.
Um pouco antes de Fellini e de Scola, Mario Monicelli também
havia abordado o tema, ao retratar um grupo de vigaristas ingênuos,
em "I Soliti Ignoti" ( no Brasil,Os Eternos Desconhecidos).
O espectador não sabe se ri das trapaças ou se chora
em razão da ingenuidade dos protagonistas.
Tais tipos pertencem à categoria dos lúmpens ingênuos
ou naïfs, como diriam os gênios (eternamente incompreendidos)
franceses do Cahiers du Cinema.
Aí, no Brasil, segundo me contou uma estudante da Unicamp,
que conheci num recente congresso internacional de nonsense, esse
tipo de vigarista é mais conhecido popularmente como "malandro-mexerica".
É tão difícil não desconfiar do golpe
que está tramando quanto não sentir o cheiro da
fruta quando a descascamos.
Talvez Marx não estivesse totalmente errado ao execrar
os lúmpens. Ao dedicar-lhes apaixonadas catilinárias
(assim eram chamados, em Roma, os violentos discursos proferidos,
no Senado, por Cícero, que, por sinal, não passava
de um clássico lúmpen, emérito e contumaz
bajulador dos poderosos da época, contra Catilina, um agitador
populista), o autor de "O Capital" estava apenas tentando
vingar-se, preventivamente, do que os burocratas soviéticos
fariam um século depois.
Como ficamos sabendo, após a derrocada do socialismo real,
na ex-URSS, por inúmeras fontes, esses burocratas tinham,
dentre outros privilégios, direito a dachas particulares,
uma espécie de casas de campo, onde passavam os fins de
semana, em companhia de devotadas companheiras, para aprimorar
seus conhecimentos de marxismo-leninismo.
Nos intervalos dos estudos, como ninguém era de ferro,
comiam salmão e caviar e - resistir quem há de?
- encharcavam-se de boa vodca russa e polonesa. Exaustos por todo
esse trabalho (comer e beber bem exige ótimo preparo físico),
passavam então aos salutares exercícios - 64 posições
básicas e diversas variantes - recomendados no Kama Sutra.
Caro leitor, não fique com raiva dos lúmpens. Em
primeiro lugar, porque isso é totalmente inútil.
Depois, porque eles não têm consciência do
que fazem, daí a ira de Marx. Além disso, como todo
o mundo, eles querem apenas ser felizes.
(*)
Kenneth Goodson, brasilianista, é autor de diversos
ensaios sobre o tema, dentre os quais "Admirável Mundo
Lúmpen", do qual este artigo foi extraído,
"Somos Todos Meio Lúmpens", e "A 4ª
Internacional".
(**)
Colaboraram neste artigo o historiador brasileiro Eleutério
Macunaíma de Andrade e o futebolista Herson (Gosto de
levar vantagem em tudo, certo?) Antunes.
|