Melhor negócio do
mundo, pipoca não
dá lucro a Lindalva

Por Gracinda Corncob Amorim

Quando a repórter explicou para Lindalva Gomes da Silva que vender pipoca é considerado o negócio mais lucrativo em todo o mundo, ela fez um ar incrédulo, balançou a cabeça de um lado para outro e disse: "Quem falou isso, moça? Estou aqui nessa esquina há mais de cinco anos fazendo oito panelas de pipoca por dia e ainda não vi lucro coisa nenhuma. Se eu não vendesse também cocada e tíquete-restaurante não sobrava dinheiro nem para a condução".

Ela está há anos com sua carrocinha numa das ruas mais movimentadas da zona norte, na esquina da Avenida Lucrécio Martins Alves, próxima da estação do metrô, e segundo garante mal consegue faturar 35 reais por dia. "Olha só pra lá", ela chama a atenção da repórter, apontando para mais quatro carrocinhas de pipoca concorrentes a poucos metros da esquina onde está. "Só se eles estão faturando, porque eu não estou".

Lindalva conta que tem família grande, cinco filhos, o marido saiu de casa seis anos atrás e não voltou mais e ela tem de pegar quatro conduções para chegar até onde monta sua banca de cocada e a carrocinha de pipoca, já às seis horas da manhã.

"Faço isso há oito anos, moça, mas se eu não chegar na hora certa, eles tomam meu lugar, e aí, tchau mesmo", ela diz, referindo-se às dezenas de ambulantes que disputam os melhores lugares perto da estação do metrô.

Lucro certo e fácil

Pesquisas internacionais publicadas há pouco em jornais informaram que vender pipoca é de longe o negócio mais vantajoso do mundo, com lucros de cerca de 10 mil por cento em cada panelada, sem incluir sal, manteiga, embalagem e o intermediário, se houver, na compra do milho. Uma saca de 25 quilos custa 36 reais e dá para centenas de pacotes. Se a pipoca é vendida em carrocinha, na rua, não há qualquer custo adicional, além do trabalho do dono, ou dona. Cada panela de pipoca dá de dez a 12 sacos, que na pior das hipóteses é vendido a R$ 1,50 cada. O milho pra isso custou, no máximo, R$ 1,90, então, é só fazer as contas.Os lucros aumentam ainda mais nas grandes redes de cinema nos shoppings centers,que vendem centenas de saquinhos por dia com preços que vão de R$ 2,50 até R$ 6,00 ou mais, por um daqueles baldes cheios de pipoca.

Mas tudo isso não tem nada a ver com Lindalva, que se espanta quando a repórter lhe conta sobre os grandes lucros que envolvem a venda de pipoca. "Eu cobro um real e cinqüenta por um pacotinho e acho que vendo uns trinta por dia. Não dá pra pedir mais, com tanta gente vendendo pipoca aqui perto", ela diz. "Mas o dinheiro que apuro vai quase todo na condução e pra comprar os ingredientes pra fazer a pipoca".

Lindalva pensa um pouco e pergunta: "Moça, será que você não me arranja um lugar pra vender pipoca nos shop (shoppings)? Com os preços que eles cobram, eu já tava rica há muito tempo".