Brasilianistas, uma
kombi e um sofá

Que meus leitores do Weekly News, jornal diário de Porkville, Iowa, nunca descubram que a van citada em meus artigos, - e que me transporta pelo Brasil afora - é uma kombi verde abacate, 1974, comprada por uma ninharia de um feirante japonês.

Foi ela que apanhou a mim e ao Kenneth Goodson, o brasilianista inglês, no Aeroporto de Cumbica. E quebrou em cima de um elevado chamado Minhocão, fazendo com que chegássemos ao hotel duas horas depois, puxados por um guincho.

Lá, nos esperavam brasilianistas do mundo inteiro. Participaríamos de um programa de televisão e seguiríamos depois para Passa Quatro, Minas Gerais, onde se realizaria o Primeiro Congresso Internacional de Brasilianistas.

Fiz ouvidos moucos à insinuação de que eu havia escolhido a cidade mineira por ser a terra natal de José Dirceu, eminência parda do presidente Lula, querendo dizer, assim, que procurava agradar ao governo. A verdade, ouso confessar, é que lá tem trutas, que poderiam ser apanhadas entre uma palestra e outra.

Na TV, sentados em um grande sofá, sete brasilianistas (a carga total da kombi) , fomos entrevistados por Hebe Camato, uma loura platinada, já de certa idade, que achou o brasilianista búlgaro uma gracinha. Nada falando de português - e mais nenhuma outra língua - o búlgaro apenas gesticulava muito e ria.

O sofá onde sentamos - fiquei sabendo depois - estava sendo motivo de grande celeuma. Convidada para trabalhar em outra emissora, Hebe Camato queria levar o sofá. Isso abalou tanto Cildo Santos, o dono da emissora, que ele resolveu morrer e se deu mais seis anos de vida. Não abriria mão de um objeto que suportou os mais famosos glúteos nacionais e internacionais por mais de trinta anos.

A solução encontrada foi um leilão, cujo dinheiro arrecadado seria doado ao Congresso Nacional ,para deputados e senadores descansarem depois de mais uma semana exaustiva de trabalho. Ofertas choveram. Um e-mail suspeito do Afeganistão oferecia uma fortuna . Adiantava que seria colocado em uma caverna para maior conforto de dois fugitivos políticos de Bush que, suspeitava-se, seriam Osama Bin Laden e Saddam Hussein. O cantor Dorival Caymmi, cansado de sua rede, também fez boa oferta. Um telefonema, via celular, de uma prisão de segurança máxima, pagava bom preço para que seus usuários tomassem sol no pátio.

A viagem até Passa Quatro seria bem mais confortável se o brasilianista gaúcho não resolvesse acender seu fogareiro portátil e nos obrigasse a tomar uma rodada de chimarrão, para nojo de Kenneth Goodson, brasilianista inglês, que se recusava a participar daquela orgia oral, a não ser que se deitasse sobre a erva uma boa dose de gim. Os brasilianistas russo e búlgaro sugeriam que se encharcasse a cuia de vodca. Aborrecido - e num descuido nosso - o gaúcho apanhou um ônibus de volta para Bagé, na rodoviária de Aparecida do Norte.

Num outro descuido , fugiram o russo e o búlgaro. A última visão que tive do brasilianista japonês foi um aceno de mão aliviado vindo da carroça de um nativo que já se ia longe. O tailandês e o nigeriano sumiram como que por encanto numa parada para um café.

Teria melhores lembranças dessa excursão, se a kombi não tivesse quebrado em Jacareí, São José dos Campos e Queluz para, finalmente, pegar fogo em Pindamonhangaba.

Chegamos, eu e Kenneth Goodson, de ônibus, tarde da noite em Passa Quatro. Encharcado de gim, Goodson foi dormir. Eu fui preparar a tralha de pescaria para, bem cedo no outro dia, ir pescar trutas na nascente do Rio Verde, em Serra Fina.


(*) Stan O. Laurel, brasilianista e argentinista, é também pescador de fama internacional e autor dos livros "O Mundo na Ponta de Uma Vara de Pesca", já na terceira edição, e "Fish, Low and High", ora em fase de tradução para o português.