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O
que o presidente argentino, Héctor Richter, e seu ministro
da Economia, Roberto Lasagna, fizeram com os tecnocratas do Fundo
Mercenário Internacional (FMI) não será esquecido
tão cedo por cronistas e jornalistas especializados em
economia. Para o leitor entender melhor a manobra, de raro brilho,
sou obrigado a recorrer ao jargão futebolístico,
bem ao gosto, aliás, de brasileiros e platinos: eles deram
dois "chapéus" seguidos nos "japoneses"
daquele organismo multilateral.
O primeiro "chapéu" foi dado na véspera
do vencimento de uma parcela de US$ 2,9 bilhões de um empréstimo
feito com o FMI, quando o presidente Richter, mais conhecido como
o "Elefante Marinho da Patagônia", anunciou, com
toda a solenidade que o evento exigia, que a Argentina não
tinha como pagar. Era o default, ou seja, a confissão da
dívida e o calote. No dia seguinte, fechou novo acordo
com o Fundo.
Duas semanas depois, na reunião de outono (primavera para
vocês, aí no Brasil e do hemisfério Sul) do
Fundo, na capital dos Emirados Árabes Desunidos, Uai (atenção,
leitor: não se trata de nenhuma cidade mineira), o ministro
Lasagna surpreendeu, mais uma vez, a comunidade financeira internacional,
ao sugerir o pagamento de apenas 25% da dívida externa
do seu país.
Uuuaaauuu!!!, diria Paulo Francis.
A comparação com o bom comportamento e submissão
do governo brasileiro ao FMI é inevitável. Afinal
de contas, o que o Brasil ganhou por seguir ao pé da letra
a amarga receita do Fundo? Recessão, desemprego, miséria,
violência urbana fora de controle, e aumento (como se isso
ainda fosse possível) da já insuportável
exclusão social.
"O mundo é dos espertalhões e dos irresponsáveis",
já dizia a minha avó Jane, ao tomar uma gemada batida
com licor de uísque pela manhã. As avós inglesas
- da mesma forma que as brasileiras, argentinas e as de qualquer
outro lugar - também são chegadas a tiradas filosóficas.
"Observe, Kenny", refletia, enquanto procurava sentir
o gosto do licor sobrepondo-se ao da gema crua, "que em todas
as famílias há sempre um irmão ou um tio
que não têm sorte na vida".
Fazia uma pausa, para que minha mãe lhe aprontasse os ovos
fritos com bacon, e arrematava, com raiva: "Na verdade, são
um bando de preguiçosos, vagabundos e irresponsáveis".
Para irritar a minha mãe - que, santamente, fingia não
entender a razão da zanga -, escandia, vagarosamente, cada
sílaba da palavra irresponsáveis.
A indireta era para meu tio, irmão mais jovem de minha
mãe, que, aos 50 anos, ainda estava indeciso quanto à
escolha da profissão.
Pois é, a vida é assim mesmo!
Após o encerramento da reunião do FMI, decidi antecipar
a leitura semanal de jornais e revistas latino-americanos, o que,
habitualmente, faço aos sábados, para acompanhar
a repercussão que o paso doble, seguido por um sonoro
olé, dado pelos vizinhos do Brasil, havia tido nos países
devedores. Entre credores, americanos e europeus, obviamente,
a reação só poderia ter sido a de indignação.
Nos veículos brasileiros e de outras nações
latino-americanas, o tom foi de contida surpresa. Já nos
da Argentina, o assunto foi tratado com suspeita sobriedade. Mais
ou menos, como fazem, aqui, os garotos que roubam cadburys (um
delicioso chocolate preto) e saem pela rua assobiando para disfarçar.
Mas, eis que, de repente, leio na secção de comportamento
do El Clarón uma notícia surpreendente, que
talvez explique melhor do que quaisquer análises sociológicas
ou antropológicas a obsessão que os povos latinos
têm, em maior ou menor grau, por passar a perna no próximo.
Em pesquisa, feita por aquele periódico, os portenhos (moradores
de Buenos Aires) se consideram, em ordem decrescente: fanfarrões
(60%); enroladores (verseros), na gíria local), (47%);
e picaretas (chantas), (34%).
Para eles, a figura que melhor os representa ainda é a
de Carlos Gardel, que eles consideram imortal; mas confessam que
seu ídolo atual é Maradona.
Pelo menos, eles são sinceros.
A única coisa que o jornal "esqueceu" de perguntar
aos seus entrevistados é se eles gostam de ser como são.
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em antropologia urbana
por Oxford, brasilianista e autor de vários ensaios e livros,
dentre eles "Maradona, um Tango nos Pés". |