Argentinista por um dia

Se perguntarem porque estou dentro de um táxi em Buenos Aires, em direção a um hotel, eu gastaria todas as linhas disponíveis neste texto para explicar tudo a que se submete um brasilianista decente, com sua Smith-Corona 1956.

Dela, se esqueceram. Já sou conhecido nos aeroportos americanos. "Lá vai o velho jornalista com sua maquininha esquisita", ouço murmurarem, e me deixam passar livremente por detectores de metais, ficando, também, livre de humilhantes revistas.

Aconteceu que alguém não pagou a prestação do avião da linha aérea brasileira. Com os motores ligados para a decolagem, um oficial de justiça e mais dois sujeitos mal encarados, nos fizeram descer a todos, já que prendiam a aeronave, como a ela se referiu o comandante.

E vim parar em Buenos Aires em outro avião, para, daqui, chegar a Brasília.

O Weekly News, de Porkville, Iowa, onde trabalho como colunista, queria uma matéria sobre o "apagão americano". Tentei vir ao Brasil - que passou por um - para saber das causas , e como resolveram o problema.

"Usted já tenieram alguno apagón?" perguntei ao motorista de táxi, com meu espanhol fraccionado.

"Si, durante el regime militar se apagaron muchos. Dos quiel se opuñam al govierno", respondeu ele.

"Me refiero al el apagón de las luces, de la enerrria".

"Ah! Impossible las luces se apagarem pra los argentinos. Nuestro ego se ilumina por el mesmo. Nunca quedamos en la escuridón."

"Por supuesto. Y que son estas señoras a camiñar en la plaza?"

"Las Madres de Mayo. Las tengo dó. Carregam dos egos. De elas e de los hijos, apagados por los militares. Eso porque um ego arrrrentino nunca se muerre."

"Y el nuevo presidente?"

"Nuevo presidente? Perón se quedó?

"Si, fué lo que disseram los viejos periódicos".

"No lo se. Porto solamente estranrrreros de lo aeropuerto para lo hotel e asi se va."

Enfim, o hotel. Instalei-me e saquei a Smith-Corona 1956, para começar o trabalho.

De repente, a escuridão, no hotel e nas ruas.

Saí, então, às apalpadelas pelo corredor, em busca de um ego argentino que me servisse de lanterna.


* Stan. O. Laurel já passou por vários apagões ao longo dos anos, reais e simbólicos. Um deles, em 1965, em Nova York, mudou sua vida para sempre, quando conheceu uma brasileira, em plena escuridão do Central Park, que o convenceu a se tornar brasilianista.