Marte brilha, cuidado
com a carteira

O planeta Marte chegou, no final de agosto, a seu ponto mais próximo da Terra: 55 milhões de quilômetros de distância, o que, na escala universal, equivale a uma pessoa ir até a padaria da esquina. Isso acontece mais ou menos a cada 200 anos, mas há aproximações menores, estas ocorrem, em média, a cada 20 anos.

Cansados de espionar, sem sucesso, as vizinhas, que jamais se despem totalmente, os voyeurs apontam lunetas, binóculos e telescópios para o céu à procura de improváveis strip-teases siderais. Na verdade, eles se penitenciam dos longos períodos de voyeurismo explícito, com a desculpa - sofisticada e oportuna - de ajudar o progresso da ciência.

A mente humana, como todos sabemos, é supersticiosa. Por isso, gosta de associar a ocorrência de eclipses e outros fenômenos naturais a grandes catástrofes, guerras, doenças, pestes; mas, também, a períodos de bonança, progresso e boas colheitas.

Três astros fascinam particularmente o imaginário popular e ancestral do homem, ou, para usar o termo criado por Carl Gustav Jung, o inconsciente coletivo: o Sol, associado à vida e a todas as coisas boas; a Lua, relacionada a paixões, sentimentos e criatividade; e Marte, que sempre nos traz à mente, violência, guerras, invasões, barbáries, inundações; e, no dia-a-dia, roubos, assaltos etc.

Em uma palavra: o ser humano atribui à influência do planeta vermelho, vizinho da Terra, todas as baixarias que é capaz de imaginar e das quais se envergonha. Esse mecanismo, conhecido na psicanálise como projeção, - você projeta no vizinho todas os atos anti-sociais que, se pudesse, gostaria de praticar - transforma Marte no perigo iminente.

O planeta vermelho também é associado ao elemento masculino. Os homens são de Marte, as mulheres de Vênus. Como ficam os homossexuais de ambos os sexos?

Curiosamente, Marte não simboliza o poder, que é exclusivo do Sol, igualmente símbolo da masculinidade, ao contrário da Lua; apenas a agressividade e a força.

Há três mil anos, o astrônomo chinês Lin Py, conhecido, na corte da 18ª dinastia Xung, por Big Apple, já relacionava aproximações e distanciamentos de Marte a ciclos de pobreza e prosperidade da China, então conhecida como Cathai. De acordo com alguns biógrafos, ele teria previsto a invasão dos mongóis, com dois mil anos de antecedência.

No Ocidente, a poetisa Safo, da ilha grega de Lesbos, suspeitamente, atribuía sua conhecida preferência sexual, à fascinação que sentia pelo planeta vermelho.

Aqui, na Inglaterra, um obscuro monge beneditino, que viveu durante o século oitavo da era cristã, em Lancaster, conhecido como irmão Dick, o Ébrio, encarregado de servir vinho às refeições, relacionou os planetas do sistema a solar aos metais. Na escala de Dick, o Sol representava o ouro; a Lua, a prata; Saturno, o ferro e o chumbo; e Marte, o mercúrio.

Para o frade beneditino, a Terra não poderia ser representada por metais; melhor seria classificá-la entre os elementos líquidos. Conta a lenda que, certa vez, o superior do convento lhe perguntou porque bebia tanto. "Amado irmão", balbuciou, cambaleante, antes do almoço, que, naquela época, era servido entre nove e dez horas da manhã, "bebo vinho porque, ao contrário do pão, ele não é sólido. Se o fora, eu teria de comê-lo. E, se fosse gasoso, eu teria de cheirá-lo".

Tamanha precisão científica custou-lhe uma semana de clausura, com direito apenas a pão e - supremo sacrifício! - água.

Cumprida a penitência, desculpou-se com os demais frades, logo depois das orações que precedem o repasto matinal. E, antes que todos se retirassem para as tarefas da tarde, ofereceu-lhes um elixir que inventara durante a penitência.

"Irmãos", disse-lhes, com voz embargada pela emoção, "este doce elixir, cuja receita foi inspiração divina, serve para a prevenção da ira, um dos sete pecados capitais". Todos, menos o irmão superior, é claro, provaram e elogiaram o que, posteriormente, viria a ser conhecido como Port wine (o vinho do Porto), uma das paixões dos britânicos até hoje.

Alguns economistas modernos, dentre os quais os americanos Thomas Wildfox e James Spitfire, ganhadores do Nobel de 1998, fizeram estudos, baseados em complicadas equações matemáticas, que sugerem que as aproximações do planeta vermelho coincidem com a ocorrência de altas especulativas de ações, negociadas nas Bolsas de Valores, e de novos impostos por parte do governo.

Coincidentemente, de acordo com jornais brasileiros, que recebo e leio regularmente aqui, em Londres, é exatamente o que está acontecendo aí, no Brasil. O governo petista oferece cargos e vantagens a aliados e até mesmo a políticos da oposição para fazer aprovar a chamada reforma tributária que, trocada em miúdos, avança fundo no bolso do consumidor.

Portanto, leitor, cuidado com a carteira. Marte só vai começar a distanciar-se da Terra daqui a um mês.


(*) Kenneth Goodson é Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, brasilianista, e autor de vários ensaios e livros, dentre os quais A Luneta de Onan.