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Comprei
uma barraca de camping, lampião a gás, sleeping
bag e utensílios de cozinha - não esquecendo
das famosas sopas Campbell's e o tradicional feijão em
lata -, chegando ao Brasil para acompanhar o movimento dos sem-terra,
o MST.
Nenhum entrevero com os agentes federais de Washington, deixando
passar a mim e minha Smith-Corona 1956, depois que me queixei
ao Departamento de Estado sobre o vexame que passei em uma de
minhas viagens, tendo mandado foto da máquina,a nota de
compra e mais um atestado da companhia aérea, esclarecendo
que tal utensílio servia apenas para escrever e não
ameaçava a segurança do vôo.
Informaram-me, ainda em Porkville, Iowa, onde sou redator do diário
Weekly News, que eu devia procurar a rainha do movimento,
o que estranhei. Seria para uma volta à monarquia esse
tal movimento?
Não era. Era um tal de Rainha e estava preso.
Identifiquei-me e armei minha barraca verde e abóbora,
no meio de outras feitas de lonas pretas, sentindo-me um tanto
quanto constrangido no começo, atiçando a curiosidade
dos acampados, mas logo angariei simpatias quando troquei latas
de sopas e feijão por marmitex com carne seca e abóbora.
Tive o cuidado de içar uma bandeira branca com a palavra
Press estampada em cor preta em um mastro de bambu. Sabe-se lá
o que pode acontecer nesses movimentos do campesinato revoltoso.
Não gostei quando, logo pela manhã, uma comissão
de acampados, com olheiras profundas, proibiu-me de escrever minhas
matérias durante a noite. O matraquear de minha Smith-Corona
1956 não deixou ninguém dormir, informaram-me.
Aos poucos fui-me familiarizando com os hábitos dos sem-terra
e até comecei a usar um boné do movimento, seguindo
o exemplo do Presidente Lula da Silva, acostumando-me, também,
com hábitos simples daquele povo sofrido. Aprendi que,
para as necessidades fisiológicas, devia usar jornais do
Rio, que usavam menos tinta, pelas dificuldades financeiras que
estavam passando.
Capinei, com uma enxada, os arredores de minha barraca. Deixei
crescer a barba e até empunhei a foice, instintivamente,
em direção a homens que exibiam cartucheiras do
outro lado da cerca.
Estava me tornando um deles. Era hora de ir embora e assumir,
outra vez, a posição imparcial de um verdadeiro
brasilianista. Já tinha material suficiente para informar
meus leitores de Iowa.
Tudo foi por terra, porém, quando resolvi ilustrar a reportagem
com minha máquina fotográfica. Fui atacado por uma
multidão empunhando foices e atirado para fora do acampamento.
Eles não conheciam o flash de pólvora.
Mas meus leitores do Weekly News puderam ver um monte de
sem-terra caído de costas, com vira-latas ao fundo em desabalada
carreira, no infeliz flagrante estampado na primeira página.
*
Stan. O. Laurel, único brasilianista
de Iowa, EUA, diz que, apesar das hostilidades de que foi vítima
entre os sem-terra brasileiros, está disposto a escrever
um livro sobre eles. Desde que o governo brasileiro garanta sua
integridade física, sua máquina fotográfica
e, principalmente, sua Smith-Corona. |