Brasil mais uma
vez no Guinness

Estava pensando no meu artigo mensal para o Sacolão, quando meu editor, aí em São Paulo, me telefonou para informar que juízes, procuradores e servidores públicos do Judiciário haviam marcado paralisação de uma semana, de 5 a 12 de agosto, como protesto pela proposta de reforma da Previdência do setor público.

Diante de tamanho disparate, pediu-me um artigo sobre o tema.

Confesso que não acreditei. Pensei que se tratasse de brincadeira. E quis saber mais detalhes do meu editor. Ele, ao perceber meu espanto, tentou tranqüilizar-me com o argumento de que na América Latina tudo é possível. Deu como exemplo grandes escritores da região de enorme sucesso, no mundo civilizado, justamente devido ao total nonsense que permeia algumas de suas obras-primas literárias.

Em seguida, concluiu, em tom de crítico do Cahiers du Cinéma: "Não por acaso, Kenny, a literatura latino-americana foi batizada de realismo fantástico". E arrematou: "Só discordo do adjetivo fantástico, pois, por estas plagas, a realidade supera, de longe, qualquer fantasia".

Ainda não totalmente refeito da surpresa, só consegui responder a meu editor que aceitava a sugestão e, em seguida, acrescentei: "Desta vez, com a revolta dos marajás, o que nunca aconteceu nem mesma na Índia, a inventora dessa execrável casta de privilegiados, o Brasil vai para o Guinness, o livro dos recordes".

A resposta foi uma sonora gargalhada, jamais ouvida por nós, britânicos. O máximo que nos concedemos são risos contidos, insinuados, meio hipócritas, meio envergonhados, entremeados por gritinhos histéricos e rubor nas faces, no caso de as autoras serem ladies (senhoras), independentemente da idade.

A propósito, lembro-me de um pós-graduando em economia, aí de São Paulo, na faixa de 30 anos, que me perguntou, após passar uma temporada de estudos aqui, em Londres, onde poderia comprar roupas íntimas para levar de presente à mulher. Indiquei-lhe o Max & Spencer, equivalente ao Mappin, aí.

Já de volta ao Brasil, contou-me por carta (naquela época, ainda não havia os tediosos e-mails) ter pedido à vendedora da loja de departamentos londrina para ir à secção de women's clothes (roupas femininas). Imediatamente, a vendedora corrigiu-o, dizendo-lhe que o correto era dizer ladies' clothes (roupas de senhoras).

Fico, aqui, imaginando tal cena em um shopping carioca.

Confesso ter um pouco de inveja, em particular, de vocês, brasileiros, e, por extensão, dos demais latino-americanos. Sem qualquer motivo, da mesma forma que as hienas, os habitantes dessa região usam o riso e o sarcasmo como antídoto para toda a sorte de desmandos, injustiças, nepotismos e exploração de que têm sido vítimas ao longo dos últimos cinco séculos.

É inegável certa dose de estoicismo nessa atitude. Aí reside, talvez, o motivo de minha inveja e simpatia por brasileiros e vizinhos.

Bem, vamos ao que interessa. Que a América Latina é ingovernável, conforme profetizou Bolívar, em seu leito de morte, nós já sabíamos. Também não chega a ser novidade o fato de, na porção ibérica do continente americano, a realidade ser, com perturbadora freqüência, mais rica e interessante do que a ficção. É só ler qualquer romance de Vargas Llosa ou de Gabriel Garcia Márquez.

Também ficamos sabendo por Sergio (o pai) e Chico (o filho) Buarque de Holanda que não existe pecado abaixo do equador (a linha imaginária que divide a terra em dois hemisférios e não o país). Além disso, ainda ao Sul do equador, a Igreja duvidou, por muito tempo, de que índios e negros, escravizados por europeus (e aí estão incluídos britânicos, irlandeses, franceses e holandeses), tivessem alma.

"Quem não chora, não mama", ensina a sabedoria popular brasileira. Mas daí a paralisar o Judiciário e, quem sabe, até mesmo o Legislativo, há uma enorme diferença. De qualquer forma, se vier a se concretizar, essa greve será, no mínimo, inovadora. Depois dela, sempre que deputados, governadores, prefeitos, senadores, servidores públicos, juízes e procuradores estiverem de saco cheio dos eleitores e dos contribuintes, poderão fazer novos e cada vez mais sofisticados protestos.

Nesse ritmo, em poucas décadas, cada vez mais insatisfeitos com as desvalorizadas aposentadorias de, em média, modestos R$ 30 mil mensais, não haverá mais políticos, nem juízes, nem funcionários públicos. Nesse dia, a humanidade terá, enfim, após milênios de sofrimento, fome, doenças e privações de todo o tipo, atingido a felicidade plena aqui na terra!


(*) Kenneth Goodson, brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana pela Universidade de Oxford, é autor de diversos livros e ensaios, dentre eles, Lalau, Um Modelo Para o 1º Mundo.