Entre nós, o fulgurante
talento de Prazan Dosadan

No Brasil, para apresentar seu filme "Sladak Kobasica" (Um Pequeno Amor no Campo da Neve de Ontem), no Festival Internacional de Arte e Idéias, o grande diretor servo-croata Prazan Dosadan nos recebeu no hotel onde está hospedado e concedeu esta entrevista. Jovem (tem apenas 21 anos), simpático, amável e modesto, uma surpresa, para alguém que é considerado um dos grandes cineastas da atualidade, ele falou sobre vários temas, notadamente o cinema atual e sua magnífica filmografia, que na opinião do crítico francês Richard-Alphonse Toupe "deveria estar à disposição da humanidade em todos os locais civilizados do mundo". Eis a entrevista:

JFS: - Qual é o tema de "Sladak Kobasica" ?

PD: - É uma singela e bela história de amor entre dois camponeses que se conhecem durante a guerra, se separam após o bombardeio de sua aldeia e se reencontram muitos anos depois. Eles estão agora em campos opostos, políticos, filosóficos e sociais, e tentam encontrar uma maneira de se integrarem outra vez. Em linhas gerais, é esse o tema do meu filme.

JFS: - Maravilhoso. Pelo jeito, será mais um êxito entre os muitos que o senhor já alcançou.

PD: - Espero que sim.

JFS: - Se o senhor me permite, quero tentar esclarecer uma antiga dúvida, não só minha mas da crítica internacional e de milhões de espectadores em todo o mundo. É sobre a cena final do que muitos consideram sua obra-prima, a comédia "Obraz Prljav" (Erros e Acertos na Nossa Vida Camponesa). Afinal, aquele cavalo roxo que corre pelo milharal e subitamente se transforma em Papai Noel e depois no Diabo, seria uma simbologia do camponês desprotegido e humilhado, em confronto com a sociedade insensível da metrópole, bem como as autoridades arbitrárias e corruptas ?

PD: - Olhe, nunca pensei nessa sua interpretação. Não se esqueça que meu país é rico em folclore e lendas rurais. Eu devo ter colocado no filme um pouco de cada uma delas.

JFS: - Mas gostaria de lembrar que a minha interpretação é a mesma do crítico francês Jacques Volcroze Magrichon, entre os mais respeitados do mundo.

PD: - Não me diga! Magrichon é um velho amigo, e também homem de muito humor e que gosta de confundir seus leitores com coisas que nada têm a ver com os filmes. É um gozador...

Neste momento, o telefone toca, é alguém convocando Pradan para a entrevista coletiva no salão do hotel. Ele se despede e faz um convite: "Diga a seus leitores para não perderem meu filme no festival". Eu respondo: "Não se preocupe, estaremos todos lá prestigiando essa obra de exceção".