Sem-terra e sem-porta-malas

Quando desembarquei em São Paulo, carregando a pequena valise de mão e minha Smith-Corona 1956, não imaginava o aperto que iria passar. Aperto mesmo, porque fui vítima do famoso seqüestro-relâmpago, como vim a saber depois.

Fui trocar meus tíquetes de refeição Fome Zero por reais, aos quais tenho direito por ser brasilianista, e encontrei a lanchonete do aeroporto fechada. Então, senti, nas costelas, algo duro, parecido com um cano de revólver. Realmente era, como vim a saber depois.

Fui conduzido a um caixa automático onde obrigaram-me a sacar todo o dinheiro, no que saíram frustrados meus seqüestradores, já que a máquina não aceitava vales-refeição, mesmo sendo do governo, como vim a saber depois.

Levaram-me ao estacionamento e fui jogado no porta-malas apertado de um carro. Sou um brasilianista de bom tamanho e peso mais de 100 quilos. Senti-me bem desconfortável enquanto rodávamos pela cidade, com cada minuto parecendo uma eternidade, como dizem os locutores da televisão brasileira quando descrevem um seqüestro, como vim a saber depois.

O sangue subiu-me à cabeça quando ouvi ruídos de teclas. Estavam mexendo na minha Smith-Corona 1956. Confesso que tenho mais ciúme dela do que de Mary Ann, minha santa esposa e secretária do jornal Weekly News, de Porkville, Iowa, onde atuo como jornalista.

"O que será isso?", perguntou um dos bandidos.

"O que vamos fazer com essa porra?" disse outro, comparando minha Smith-Corona ao líquido seminal, como vim a saber depois.

"Entramos numa fria!", disse o terceiro, referindo-se ao fato de terem seqüestrado uma pessoa com tíquetes do Fome Zero e um aparelho de teclas que desconheciam.

Doía-me terrivelmente todo o corpo e isso bem poderia estar acontecendo em Cuba, pensei, onde os carros são velhos mas, pelo menos, os porta-malas são bem mais confortáveis.

Por fim, deixaram-me numa rua deserta no centro da cidade, felizmente perto do hotel onde ficaria hospedado.

Dar queixa à polícia? Não. Estava no Brasil para fazer uma reportagem sobre os sem-terra.

Pelo meu estado físico e para minha vergonha, pensei em imitar aquele jornalista do New York Times que inventava matérias.

Esqueçamos isso. Afinal, todos já fomos "sem-terra". Meu bisavô era ordenança do Búfalo Bill, quando tomamos as terras dos índios, no velho oeste americano. O George Bush, pai, teve um tio-avô que foi escalpelado nos combates, como vim a saber depois.

Todos já fomos "sem-terra". Apenas uns chegaram primeiro que os outros.

Voltei para os Estados Unidos. Vou pescar trutas em Iowa.


* Stan. O. Laurel, brasilianista, jornalista e colecionador de máquinas de escrever, era criança quando foi apresentado pelo bisavô ao lendário Búfalo Bill. Desde então passou a ver os sem-terra com outros olhos.