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Há
tempos esta coluna não conhecia uma safra tão rica
e madura de livros como nestes seis primeiros meses de 2003. Todos
os temas, todos os estilos, nacionais e estrangeiros, com a predominância
dos primeiros. Por falar em qualidade, neste mês de julho
comemora-se o 138º aniversário de nascimento de Almendara
Jardim Almeida, o grande poeta e contista, cujo epíteto
diz tudo sobre sua obra: "o arquiteto do porvir". Para
aqueles brasileiros que desdenham os autores nacionais, de raízes
eminentemente patrícias, embora de escopo internacional,
saibam que Jardim Almeida foi o criador do romance après-dépendance".
Até então, os textos ficcionais, e mesmo os não-ficcionais,
estavam presos, escravizados ao chamado texte feuillu ,
ou das idéias exuberantes, cuja forma nada tem a ver com
o conteúdo. Em outras palavras, são ilusórios,
vazios, sem qualquer significância.Seja como for, é
importante ler Almendara,agora mais do que nunca. E já
não é sem tempo uma de nossas editoras de ponta
reeditar as obras completas dele. Sua talvez obra-prima, "Idiossincrasia
e Escopo dos Poetas Seiscentistas", teve sua última
impressão em 1912!
Mas voltando ao título desta coluna, li ou reli 34 livros
dos 39 que as editoras me enviaram neste primeiro semestre. Ufa!
Que safra! Que obras exponenciais! Que riqueza de forma e conteúdo!
É difícil escolher o mais gratificante, mas após
dolorosa e excruciante triagem, fico com "Hérésie
Sauvage (Éditions Confondre,Verdun, 1921),de Jean-Antoine
Bavard.
Grande revelação das letras franco-espanholas de
2002, este jovem gênio, de 36 anos, surdo e mudo desde os
12 anos, compôs uma obra ficcional-ensaística de
profundo humanismo, perfurante atualidade, universalidade ilimitada
e luminosa erudição. Saboreiem, como mero e fugaz
aperitivo (oportunamente, farei análise detalhada do livro),
este trecho, sobre o tema da obra aberta:(...) "a poética
do barroco, no fundo, reage a uma nova visão do cosmo introduzida
pela descoberta da elipticidade das órbitas planetárias
realizadas por Kepler, uma descoberta que põe em crise
a posição privilegiada do círculo como símbolo
clássico de perfeição cósmica... Assim
como a motricidade kinética nada mais representa diante
do imutável vazio do cosmo, também a ausência
do significado definitivo na obra de arte é apenas uma
percepção pessoal e objetiva do belo... A ética
helenística, que muitas vezes se confundia com arte e filosofia,
acabou por anular a estética, como hoje a conhecemos, para
transformar o belo num simples ponto de meditação
transcendental".
Gostaram? Voltarei ao tema na próxima coluna.
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