A cesta básica dos ricos

A cesta básica dos ricos, ao contrário da dos pobres, é composta basicamente por, digamos assim, uma espécie de genéricos de drogas saborosas - açúcar, chocolate, café, chá, geléias, mel, marrom glacê, panetones, tortas de frutas vermelhas, bolos, dentre outras delícias - produtos esses que estão cada vez mais caros. De sorte que - pobres ricos! - eles têm de trabalhar cada vez mais horas para ter acesso a eles.

Se adicionarmos alguns salgados finos, tipo presunto de Parma, salame espanhol, arenque e salmão defumados, caviar, finos queijos franceses (gruyère, emmenthal, camembert etc.) e respectivos vinhos, que costumam acompanhar essas iguarias, em geral, franceses ou italianos encorpados, além, é óbvio, nas ocasiões especiais, do champanhe francês e do vinho do Porto, veremos que a vida de rico não está nada fácil.

Estou partindo do pressuposto que as novas gerações de ricos abandonaram de vez o tabaco, cigarros, cigarrilhas e charutos cubanos finos, enrolados à mão, o que diminui, mas não acaba com o consumo dos licores (cointreaux, drambuies, stregas e sambuccas). Sem contar com os deliciosos cafés tipo exportação, capuccinos, Irish coffees ou tortas de café geladas.

Feitas as contas, por alto, tudo isso aí já dá mais do que um salário mínimo. Como a família-padrão média dos ricos é composta por quatro pessoas, temos um total de R$ 960,00 mensais só em supérfluos.

É duro ser rico tanto aqui, na Inglaterra, como aí, no Brasil. Ser pobre tem suas vantagens. Alguns quilos de batata, peixe seco, torta de rim e, claro, fora da cesta básica, muita cerveja barata e gim fazem a alegria de qualquer cockney londrino. Tudo baratinho. Apenas algumas libras por semana.

A cesta básica do brasileiro, imagino, deve conter alguns quilos de arroz, feijão, farinha de mandioca e macarrão. Talvez meio quilo de carne seca (jerked beef) e uma lata de sardinhas. De sobremesa, goiabada cascão, daquela bem doce, paçoquinha e rapadura. Para beber, uma garrafa de Ypioca, outra de vinho Chapinha e, para as crianças, um monte de tubaína!

Na época do Natal, aí no Brasil, costumam enriquecer a cesta básica com duas garrafas de champanhe de sidra Cereser. É uma alegria ver a criançada abrir a cesta natalina, recheada de bombons, torrones e balas toffee, que são gentilmente ofertadas por associações de dentistas. Um mês depois, é aquela fila nos consultórios para refazer as obturações.

Vocês aí, no Brasil, devem estar se perguntando como é que um scholar britânico sabe o que é tubaína e sidra Cereser?. É que tive uma aluna, aqui em Londres, formada em História pela USP, cujo trabalho de mestrado versava sobre a importância das especiarias nos hábitos alimentares dos europeus.

Ela me contou que era vidrada numa tal de cesta de Natal Amaral, que era sorteada nas fábricas e nos bares populares de São Paulo, em meados da década de 60.

Essa moça, de inteligência brilhante, chamava-se Miranda Mangiabene (que, em italiano, significa come bem), morava no bairro da Mooca, aí em São Paulo. Era neta de imigrantes italianos, que vendiam frutas no Mercado Central, nas imediações da rua 25 de Março, região central da cidade.

A pesquisa inicial, que deu origem à sua tese de mestrado, baseava-se em uma descoberta simples, mas sensacional. Após consultas a documentos históricos conhecidos como waybill (um tipo de nota fiscal que acompanha as mercadorias transportadas por navios de carga), conservados e arquivados na Torre do Tombo, em Portugal, ela concluiu que a popularização das especiarias, na Europa, ao longo do século 16, fazia parte de uma estratégia comercial monopolista, bem-sucedida.

A lógica dos reis de Portugal era a seguinte: descoberto o caminho marítimo para a Índia e a China, contornando-se a África, as repúblicas marinheiras italianas, principalmente Gênova e Veneza, perderiam gradativamente a sua importância como grandes supridoras de especiarias das cortes européias.

Portugal, além de tomar o espaço dos mercadores genoveses e venezianos, tinha descoberto um trunfo poderoso: o açúcar indiano e o chá chinês tinham propriedades bioquímicas que criavam dependência em seus usuários. É bom lembrar que no século 16 o consumo das especiarias orientais era restrito exclusivamente às cortes européias.

Ou seja, em cem anos, calculavam os mercadores portugueses e os senhores da Casa de Aviz, eles teriam a nobreza européia em suas mãos.

Essa estratégia foi imitada, tempos depois, por holandeses, franceses e espanhóis, os dois primeiros após a descoberta do tabaco, feito com folhas secas de fumo; e os segundos com o chocolate, que era usado pelos índios mexicanos.

A principal vítima dessa estratégia comercial das ex-potências mercantilistas foi a Inglaterra, cuja corte, desde os Tudors até os Windsors, entregaram-se de corpo e alma às delícias do chá, do açúcar, do chocolate, misturado ao leite e adoçado, e também do tabaco.

No começo, a Inglaterra estimulou a pirataria para pilhar os navios carregados com essas mercadorias, mas logo depois percebeu que, com a expansão enorme do consumo, teria que produzi-las fora do seu território.

O que veio depois é conhecido de todos. As guerras do chá com suas ex-colônias americanas e, no século 19, a Guerra do Ópio, tentando obrigar os chineses a trocar ópio, plantado na Índia, por chá.

Na virada do século 19 para o 20, até mesmo os brasileiros tentaram, com relativo sucesso, viciar a humanidade numa infusão feita com grãos torrados de uma planta chamada café, contrabandeada da Guiana Francesa, por um certo Francisco de Melo Palheta.

Como se vê, os atuais narcotraficantes espalhados pelo mundo tiveram ancestrais ilustres!


(*) Kenneth Goodson é Ph.D. em antropologia urbana por Oxford, brasilianista, e autor de vários livros, dentre eles o best seller O Barato de Cada Um.