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Cariocas
criam Sede Zero
e se surpreendem com
o número de adesões
Texto de Fábio Rausch
Foto de Raul Poivrot
Desta
vez a idéia não nasceu nos bares ou na praia de
Ipanema, paraíso de boêmios,descolados e desocupados,
mas em Del Castilho, um outrora sonolento subúrbio da zona
norte do Rio. Um grupo de sete amigos, que se reúne há
oito anos no Bar Burinho, um pequeno e movimentado botequim, decidiu
fazer uma brincadeira com o Fome Zero do governo. O resultado
foi inesperado: em menos de uma semana, houve 10.650 adesões.
Em uma das reuniões de sábado, para ver quem bebia
mais, numa velha disputa chamada "Êta Sede Danada",
Gaudêncio Luís Gardona, de 62 anos, o mais antigo
membro do grupo, brincou dizendo que Fome Zero é pra quem
tem fome, "E pra quem tem sede, como é que a gente
faz?"
Gardona, que se orgulha da grande barriga ("Graças
a muita cerveja da boa" , como afirma), conta que num sábado
a turma já estava "pra lá de Bagdá",
de tanto chope e cerveja. "Aí, o Carlão, que
é designer, e sabe tudo sobre computadores, disse que a
idéia era boa e ia criar um site na Internet com a brincadeira
da Sede Zero". Foi assim que nasceu a coisa toda.
Ditados
nas camisetas
De
acordo com Gardona, "O Carlão levou a coisa a sério
e cinco dias depois estava na Internet o nosso site. A surpresa
maior aconteceu cinco dias depois, quando o e-mail registrou nada
menos que 10 mil acessos". Ele conta que de todo o Brasil
receberam centenas de mensagens, adesões, receitas de drinques,críticas
e gozações. Uma delas, de acordo com Gardona, veio
de alguém que se assinou "Garrafa Cheia Eu Não
Quero Ver Sobrar", que disse que já era tempo de alguém
criar um site para aqueles que têm sede e não
se importam em ficar de barriga vazia".
O sucesso imediato do Sede Zero vai se estender a outros setores
além dos copos e garrafas. Já estão sendo
confeccionadas três camisetas, tendo na frente e atrás
ditados de famosos bebuns, como Oscar Wilde ("O trabalho
é a perdição das classes bebedoras"),
W.C.Fields ("Comecei a beber por causa de uma mulher.
E nem tive tempo de agradecê-la") e Sir John Collings
("Não estou tão pensa como bêbado
você"), que serão vendidas a preços
acessíveis. "Os lucros que a gente tiver com as camisetas",
explica Gardona, "serão aplicados no óbvio:
bebida".
Crítica
de Brasília
Uma
das raras críticas ao Sede Zero veio de um e-mail anônimo
de Brasília, que Gardona acredita tenha partido de alguém
do governo, "ou então de algum chato que não
bebe", dando um pito nos boêmios cariocas. O e-mail
diz : "Quando todo o país se empenha em criar um programa
para combater a miséria e a fome, desocupados inconseqüentes
como vocês brincam com a realidade e a seriedade".
Gardona, como bom boêmio carioca, reage: "Esqueçam
esses abstêmios chatos.Tudo começou como uma brincadeira
de mesa de botequim. Os 10 mil acessos que o site teve mostram
que nós, os bebuns, temos o apoio de milhares de brasileiros.
Vamos continuar brincando, e bebendo. Abaixo os abstêmios.
E depois, ao nosso jeito, estamos colaborando com o Fome Zero.
Junto com a bebida, o bebum quer sal, quer comida, alimento. Então,
quanto mais bebida, mais a gente come, não é mesmo?".
Ele enche o copo mais uma vez, levanta para o alto e diz: "Saúde
para nós e também para o tal Fome Zero!".
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