Um dia de cão

Eu devia ter ficado na cama. Por que essa idéia louca de fazer uma reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro, tendo que voar milhas e milhas apenas para satisfazer meus leitores?

Bem dizia meu finado pai: "Filho, vá ser mineiro no Alasca, entre para a Ku Klux Klan, mas nunca seja um brasilianista."

Isso não impediu que eu me deslocasse até o aeroporto de Washington, a caminho de mais uma reportagem para o Weekly News, o diário de Porkville, Iowa, onde moro e trabalho.

A luz vermelha acendeu sobre mim, depois do check-in no aeroporto. Fui conduzido para uma saleta nua e narro o que se passou a seguir:

"O que vai fazer no Brasil?"

"Sou brasilianista e vou à cata de assuntos importantes para meus leitores".

"Segundo nosso manual de alerta laranja contra o terrorismo, brasilianista é considerado estrangeiro".

"Estrangeiro? Sou nascido e criado em Porkville, Iowa, onde atuo brilhantemente como jornalista".

"Sinto muito, está escrito aqui. O senhor vai ter que ficar nu para uma revista".

"Nu? Estudei e ainda pesco com George Bush, pai, meu colega de bancos escolares!"

"Lamento, mas o senhor pode conservar sua cueca, em respeito ao pai do Senhor Presidente".

Nada acharam, claro. Fiquei apenas envergonhado de meus joanetes.

"O que tem nessa maleta de mão?".

"Minha máquina de escrever, Smith-Corona, de 1956, presente de meu finado pai."

"O que é uma máquina de escrever?", perguntou o policial, mistura espadaúda de Hulk e Rambo, que me revistava.

Chamou dois colegas pelo interfone e ficaram olhando com desconfiança para a Smith-Corona enquanto eu via, por uma pequena janela de vidro, senhores embarcando incólumes com notebooks.

"Vamos ter que desmontar isso e pode demorar um pouco".

"Sem minha Smith-Corona eu não embarco".

"Melhor ainda: esse troço vai ser enviado para o FBI".

Um dos mastodontes apertou uma tecla e pulou para trás quando tocou o sininho da tabulação.

Talvez o padrasto destino estivesse evitando, nesse dia aziago, que minhas malas se extraviassem ou que fosse abatido por uma bala perdida no Rio. Consolei-me e desisti da viagem.

Disse, então, quase gritando:

"Vão todos para o inferno. Eu vou pescar trutas em Porkville!".


* Stan. O. Laurel, brasilianista por livre escolha, foi prefeito de Porkville, Iowa, USA, campeão de pesca fluvial e em todas as pescarias jamais deixou de levar sua Smith-Corona.