A segunda vida de J. D. Perón

A recente posse do novo presidente argentino, Néstor Kirchner, deu origem a uma tremenda polêmica sobre o mito da imortalidade de Juan Domingo Perón entre brasilianistas e scholars, especializados em assuntos políticos e econômicos latino-americanos, de língua inglesa. Recebi de amigos americanos, canadenses, australianos e até de neo-zelandeses, aqui, no meu escritório londrino, várias e curiosas mensagens eletrônicas sobre esse tema.

A mais hilariante de todas veio de Melbourne, Austrália, assinada por um historiador local, que obviamente se esconde sob o pseudônimo de Vlad da Tasmânia, numa clara alusão ao príncipe homônimo da Transilvânia, que, segundo a lenda, teria dado origem a uma extensa linhagem de vampiros.

Perón, segundo o correspondente australiano, apavorado após a inesperada morte de Evita, teria recebido, na Casa Rosada, um líder espiritual mongol, descendente direto de Gêngis Khan, que lhe prometeu a imortalidade pela módica quantia de 30 milhões de dólares. O primeiro passo rumo à imortalidade, de acordo com Vlad, é o ser humano ser transformado em anão, depois em duende e, posteriormente, em vampiro.

Após gostosa gargalhada, fiquei sabendo de meu correspondente desconhecido que Perón, em sua segunda vida, poderia ser hoje um pacato anão, mordomo da Casa Rosada, uma espécie de bobo da corte, para melhor fiscalizar seus sucessores; um simpático duende, brincando entre plantações de soja transgênica, ou, ainda, um raquítico vampiro, escondido em alguma remota caverna da Patagônia.

A propósito, lembrei-me de um amigo jornalista, que conheci aí, em São Paulo, que, depois de ter bebido uns quatro ou cinco cuba libres, dizia, com aquela voz pastosa de quase-bêbado, que os anões não morrem nunca. Após ouvir pacientemente as rotineiras gargalhadas dos presentes, perguntava-lhes, em tom de desafio: "Algum de vocês já compareceu a um velório de anão?"

Curiosamente, em 1986, alguns meses após a posse de Raúl Alfonsín, o embaixador argentino em Washington confidenciou-me, em tom solene, em sua residência, enquanto saboreávamos um delicioso licor de uísque: "Kenny, nós, do Partido Radical, estamos cada vez mais convencidos, na Argentina, de que nosso país precisa livrar-se de Perón".

Obviamente, não fiz qualquer comentário. Ele interpretou o meu silêncio como sinal de concordância. "Pretendemos", disse, "mandar assassiná-lo antes de encerrar-se o atual mandato presidencial".

Quase lhe perguntei como assassinar um homem que já morrera mais de dez anos antes. Não o fiz porque achei que falava em matar Perón no sentido figurado.

Alguns meses depois, reencontrei-o em Brasília, onde ambos participávamos de um evento que discutia as bases do Mercosul. Convidou-me então para uma parrillada, uma espécie de rodízio de carnes grelhadas, na sede da embaixada, que seria realizada dali a alguns dias. Ele fora indicado pessoalmente por Alfonsín como negociador para a formação do bloco regional de comércio.

"Você não imagina, Kenny, a oposição que os peronistas estão fazendo para que a Argentina fique fora do Mercosul". Eles acreditam, confidenciou-me, enquanto abocanhava um enorme pedaço de chorizo (contrafilé, aí no Brasil), em um acordo preferencial com os Estados Unidos, sonham com uma fictícia paridade entre o austral, que hoje vale um milésimo de dólar, e a moeda americana e outros desvarios megalomaníacos semelhantes.

Alternando nacos de carne com garfadas de cinco ou seis batatas fritas, em voz baixa, quase cochichando, disse: "Já encontramos o homem talhado para a missão: trata-se de um irlandês, conhecido pelo nome de guerra de Patrick Charles Dowling, um veterano terrorista do serviço de contra-espionagem do Exército Republicano Irlandês." Ele nunca falhou até hoje ", acrescentou, esfregando as mãos de contentamento.

"Os ingleses", segredou-me, parando de comer para melhor avaliar a minha reação, "costumam chamá-lo de 'O carniceiro de Belfast'". Fingi espanto, para entrar mo clima daquilo que eu achava ser uma brincadeira. "Para quando está prevista a chegada do Chacal?", perguntei-lhe. "Se tudo der certo, Kenny, o homem estará em Buenos Aires dentro de um mês".

Nunca mais vi meu amigo portenho. Chamava-se Ruy Viegas, se não me falha a memória. Soube, há uns dois anos, por intermédio de diplomatas brasileiros, que serviram recentemente em Buenos Aires, que ele se aposentara. Para passar o tempo, me disseram que ele abriu uma casa de shows de tango, em San Telmo, com o nome de El bandoneón de Belfast".

Quanto a J. D. Perón, me informa o site "Brumas de Avalon", especializado em tradição druída, esoterismo, caça-vampiros, etês, óvnis e genealogia de anões, ele foi visto pela última vez na cerimônia de posse de novo presidente argentino.


(*) Kenneth Goodson brasilianista, Ph.D. em antropologia urbana pela Universidade de Oxford é autor, dentre outras obras, de "Liberdade para os anões de jardim", traduzido em 16 línguas.

Colaborou neste artigo Fate Morgan, famosa caça-vampiros e perseguidora de anões.