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A
guerra acabou, mas sobrou munição, pelo visto. George
W. Bush volta, agora, os canhões para a Síria e
outros de seus desafetos. O caos se instalou no Iraque, com saques
e desentendimentos sobre quem vai tomar conta daquela balbúrdia.
Armas químicas? Nada acharam.
Tombaram, sim, muitos de nossos colegas jornalistas, abatidos
pelo conhecido fogo amigo que, suspeito, foi uma forma de caças
aliados treinarem pontaria.
Já fui atingido pelo fogo amigo - "friendly fire"
- expressão conhecida desde a Primeira Guerra Mundial,
em minha vida aventurosa de correspondente. E foi no Brasil, quando
comecei a interessar-me por esse belo País.
Havia chegado há pouco no hotel, tendo desembarcado de
um velho DC-3, em São Paulo. Tinha um encontro marcado
com um escritor e editor de uma revista que, gentilmente, iria
pôr-me a par da política e vida cultural nativa,
iniciando-me , assim, na promissora carreira de brasilianista
(conto sempre esse episódio em minha coluna no Weekly
News, jornal diário de minha pequena cidade de Darkville,
Iowa.
O meu amigo desembarcou de um bonde, vestido com um terno de linho
branco, chapéu panamá e uma azaléia vermelha
na lapela. O inglês era a minha língua dominante,
da qual o jornalista nada entendia. Eu já o esperava, não
menos decentemente vestido, no bar do hotel. Por gestos, falando
com as mãos como dois italianos, pedimos uma bebida - sugestão
dele.
Era uma coisa doce e deliciosa, feita com limão e um líquido
chamado pinga, o uísque local. E, ainda com as mãos
começando a nos entender,tomamos vários drinques.
Nos despedimos, subi ao quarto do hotel, vermelho como um peru
do dia de Ação de Graças. Mas estava ainda
com aquele gosto bom na boca e queria mais.
Desci novamente ao bar e, com movimentos desesperados das mãos,
tentei pedir ao garçom a bebida sagrada. Muito tempo se
passou, até que consegui balbuciar a palavra cafiaspirina.
Ele voltou, com dois comprimidos e um copo de água.
Foi minha primeira queda no campo de batalha, abatido pelo fogo
amigo, acordando, no outro dia, sem saber onde me encontrava.
Ainda bem que não devolvi os comprimidos. Hoje, claro,
sei a diferença entre cafiaspirina e caipirinha. Mas em
homenagem àquele dia, batizei a deliciosa bebida de cafiaspirinha.
E, agora, nesta nova visita ao Brasil, chego cada vez mais à
conclusão que os brasileiros são constantemente
abatidos pelo fogo amigo. De nada vale deduzir itens do
Imposto de Renda se o abate do governo vem antes nos descontos
na fonte. As balas perdidas, que sobram sempre para crianças
e velhinhos passantes, é o fogo amigo tolerável:
o que estavam fazendo lá no entrevero entre policia e bandidos?
Fogo amigo também é o salário mínimo,
uma condescendência do governo.
E esse fogo só pode ser amigo porque, abatido como moscas,
o povo todo se reúne - mocinhos, bandidos e políticos
- e sai atrás do trio elétrico durante o Carnaval.
*
Stan. O. Laurel, doutor em sociologia, otorrinolaringologia
e história latino-americana, foi tenente farmacêutico
durante a Primeira Guerra Mundial e atualmente pesquisa dados
para o livro "O Que Vamos Herdar do Iraque". É
fã de caipirinha. |