O rádio era a paixão
das mocinhas sonhadoras

Quando eu tinha 18 anos, morava numa tranqüila rua de Juiz de Fora, em Minas, chamada Rua dos Artistas.Quem não acredita, pode investigar, era e é Rua dos Artistas mesmo. Pode ser que o nome da rua ajudou a mim e muitas amigas minhas a acharem que eram mesmo artistas, destinadas a uma fulgurante carreira como atriz, cantora ou locutora, coisas assim. Naquele tempo, nos anos 40 e 50, quem tinha um mínimo de beleza já se imaginava como estrela de Hollywood ou das grandes emissoras de rádio da época.

Para minhas queridas leitoras, que estranharam o vocábulo "locutora", quero oferecer aqui uma explanação mais ampla. Pelo menos para aquelas que nasceram depois de 1980. Ah, que saudades dos meus 20, 24 anos! Naqueles tempos não havia televisão (por mais absurdo que isso possa parecer! Não existia mesmo!). Então, o que deixava todo mundo fascinada e sonhando era o rádio, eram as atrizes de radionovelas e as locutoras, ou apresentadoras de programas. E a Hollywood brasileira era a Rádio Nacional.

Meu Deus! Quanta dor de ouvido eu tinha! E querem saber por quê? Porque minha mãe era de educação rígida e eu e minhas irmãs, que acordávamos bem cedo para ir à escola, tínhamos que dormir, no mais tardar às nove horas da noite.Já pensaram? Hoje em dia, minhas netas ainda estão dormindo às nove da noite. Elas acordam às onze da noite, começam a se aprontar até bem depois da meia-noite, saem para um negócio chamado "balada", que até agora não sei o que é, e costumam voltar seis, sete horas da manhã! Uma loucura, mas o que fazer, se minha filha, a mãe delas, diz que é assim mesmo, os tempos mudaram, são outros! Sei não, acho tudo isso um absurdo.

Mas como eu ia relembrando, dormir às nove da noite era impensável para mim, jovenzinha e sonhadora. Ainda mais que, bem no tardio horário das onze da noite, tinha um programa na emissora local, chamado "Alô, Jovens Apaixonadas", que eu não perdia de jeito nenhum. Eu então botava o rádio grandão embaixo das cobertas e grudava o ouvido nele, tocando bem baixinho, que era para a minha mãe não acordar. O programa, com mais de uma hora de duração, tinha muitas músicas românticas (meu predileto era o cantor de boleros Pedro Vargas), além de poesias muito bonitas e recados de amor entre rapazes e moças. Já imaginaram como meu ouvido doía, grudado no rádio por mais de uma hora?!

E que voz linda tinha o locutor do programa, Ewaldo Lameira Júnior! Ele era a paixão de milhares de mocinhas sonhadoras na minha cidade, que fariam tudo para conhecê-lo. Então, aconteceu o grande momento da minha vida.Numa noite de sábado, durante um baile na escola, uma coisa estarrecedora aconteceu.Quem vocês imaginam que veio cumprimentar meu pai?! (continua)