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Numa
das minhas habituais idas a Washington, para participar das sisudas
reuniões do Fórum das Américas, no início
deste ano, fiquei intrigado com a presença de lindíssimas
jovens americanas - todas loiras e de olhos claros - distribuindo,
para os participantes do evento, panfletos intitulados "Os
herdeiros da globalização", assinados por uma
ong autodenominada "Paraíso Azul".
Na hora, pensei numa canção, ainda muito popular
por lá, cujo refrão diz, em tom de malícia,
"bye, bye, american pie", que, em tradução
livre, quer dizer "adeus à torta americana",
só que a torta, no caso, é uma esfuziante loira,
uma espécie de porta-bandeira das fanfarras escolares,
no auge dos seus 16 anos, explodindo de hormônios e curtida
a milk shake e hambúrguer.
No hotel, à espera de um colega mexicano, li o manifesto
assinado pela misteriosa ong, que, como todas as outras, ergue
a bandeira de defesa do meio ambiente, dos ornitorrincos, das
araras, dos micos-leões-dourados, dentre outros. No começo,
achei aquela baboseira divertida, mas, depois, pensei que as idéias
ali escritas correspondiam aos anseios da classe média
das nações mais globalizadas.
Numa linguagem aparentemente ingênua, os autores do manifesto
dizem que o planeta precisa ser limpo para que possa, em 50 ou
100 anos, voltar a ser o paraíso que era na época
de Adão e Eva. Obviamente, eles insinuam que nesse espaço
de tempo a Terra terá um governo único, formado
por sábios ilustres em cada área do conhecimento,
todos falando o inglês da costa Leste dos Estados Unidos.
Bem, até aí nenhuma novidade. Sobre o futuro da
economia mundial, os herdeiros da globalização lembram
"A História da Riqueza das Nações",
de Adam Smith, para defender uma espécie de zoneamento
planetário no qual cada continente ou região desempenhará
o papel para o qual se mostrou mais competente até o século
20. Seguem-se palavras de ordem típicas de ongs preservacionistas.
Comentei o assunto, no jantar, com meu amigo mexicano, Wladyr
Faulkner Paz y Trujillo, uma espécie de consultor em desenvolvimento
para países de expressão espanhola, que se mostrou
vivamente interessado. Durante a sobremesa, combinamos acessar
o site da ong "Planeta Azul" para obtermos mais informações.
No café, enquanto fumava um Havana legítimo, Trujillo
dava murros na mesa, acompanhados por sonoros palavrões
- a língua espanhola é ideal para isso - dos quais
nada entendi em razão da velocidade em que eram ditos e
dos superlativos. Em seguida, acalmou-se ao sorver, em pequenos
goles, o licor amarelado.
Não queria deixar gorjeta porque o garçom, ao qual
se referia como "gringo, hijo de puta", rangendo os
dentes, tinha cara de anglo-saxão protestante: era ruivo,
sardento e de olhos claros. Imagino a sua reação
ao ficar sabendo, após consulta ao site da ong, que o árabe
e espanhol deveriam ser consideradas línguas estrangeiras
hostis à supremacia do inglês, o esperanto da era
da pós-globalização.
De acordo com o site, o russo e o chinês são línguas
que se encontram atualmente em fase de transição,
de hostis para receptivas, em relação ao inglês.
Já ao francês, outrora famoso por ser o idioma da
diplomacia, restará o consolo, segundo estimativas dos
herdeiros da globalização, de tornar-se, no futuro,
a língua oficial da gastronomia.
Quanto ao alemão, que a ong classifica como ex-língua
da filosofia, as previsões são ainda mais sombrias:
em algumas décadas, calcula o site, ela terá a mesma
importância do latim.
Bem, vocês aí no Brasil devem estar curiosos para
saber o que pensam os idealizadores da ong "Planeta Azul"
sobre o português. Ao contrário do espanhol, os herdeiros
da globalização acham que a língua dos brasileiros
tem tudo para tornar-se aliada do inglês na expansão
dos ideais pós-globalização.
O leitor entenderá melhor a preferência pelo idioma
português após ficar sabendo de que maneira a ong
imagina que o mundo será dentro de 100 anos. Resumidamente,
os defensores do "Planeta Azul" dividem a sociedade
planetária futurista em quatro categorias: a dos pensadores
e planejadores, a dos provedores de serviços, a dos produtores
de alimentos, e a dos parques ecológicos.
Essas quatro categorias valeriam tanto para pessoas como para
nações e regiões que, aos poucos, iriam desaparecendo
para formar a sociedade planetária sem fronteiras. Até
lá, cada nação ou região contribuiria
com o que melhor soube fazer até o século passado.
Alguns exemplos: o petróleo e o ouro do futuro serão
a água doce e a disponibilidade de terras que países
e regiões tiverem para produzir alimentos, de preferência
orgânicos, aqueles sem agrotóxicos. Também
terão muito valor os locais do planeta ainda não
poluídos e cujo potencial de biodiversidade possa ajudar
a melhorar a qualidade de vida das pessoas.
É claro que, nesse mundo ideal, preconizado por muitas
ongs, ligadas à defesa do meio ambiente, a industrialização
do mundo deverá ser progressivamente diminuída até
que ela se torne compatível com a "saúde"
do planeta. Em outras palavras, países que ainda não
se industrializaram plenamente deverão abdicar do desenvolvimento
como cota de sacrifício para limpar o planeta.
Nessa visão futurista, a América Latina é
mais importante, para Estados Unidos e Europa, do que a Ásia
e a África porque tem população muito menor
do que a da primeira, mais água doce e terras disponíveis
para plantar alimentos do que as duas e menos conflitos do que
a segunda.
Após leitura atenta do site da ong "Planeta Azul",
deduz-se o seguinte: eles (americanos e alguns europeus) consideram-se
os herdeiros da globalização e, portanto, reservam
para si o papel de pensadores e planejadores do futuro. Ásia
e África são continentes que terão de ser
gradativamente controlados. A ex-União Soviética
já o foi e a China está em fase adiantada de controle.
Restam, na Ásia: Índia, Paquistão e Coréia
do Norte, que pouco ou nada poderão fazer sem o apoio de
uma superpotência alternativa aos Estados Unidos.
Quanto ao mundo árabe, seu declínio, no Oriente
Médio e na África, deverá ocorrer à
medida que o petróleo for sendo substituído por
hidrogênio, combustível limpo, abundante e democrático,
pois se distribui por igual em todo o planeta.
Como o leitor já adivinhou, em mais algumas décadas,
necessárias para que Ásia e África se transformem
em regiões produtoras de alimentos, água doce e
em biodiversidade, a exemplo da América Latina e da Oceania,
começarão a surgir os jardins do Éden da
era pós-globalizada.
No âmbito da América Latina, o papel reservado ao
Brasil é, no modelo desenhado por algumas ongs, fundamental:
o país dispõe de um terço da água
doce do mundo, da maior área de expansão agrícola,
necessária para a produzir de alimentos; de um dos maiores
rebanhos bovinos, de biodiversidade única, da qual poder-se-ão
extrair remédios para curar muitas doenças; e de
imenso potencial turístico e ecológico.
Agora ficou mais fácil o leitor entender o interesse demonstrado
pelo idioma que os brasileiros falam.
Como se vê, o Big Brother - cujos milhares de olhos e de
ouvidos são a extensa rede de ongs, missões religiosas,
assistenciais e tecnológicas espalhadas pelo mundo - está
de olho em vocês, aí no Brasil. A única maneira
de escaparem dele é desenvolver plenamente todas as imensas
potencialidades do país. Antes que algum outro aventureiro
o faça.
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em Antropologia Urbana
por Oxford, brasilianista e autor de várias obras, dentre
as quais "Terceiro Mundo: O Jardim Zoológico da Globalização". |