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Começou,
em meados de março, a Quinta Cruzada. Após mais
de oito séculos de relativa tranqüilidade e boa vizinhança
entre cristãos e muçulmanos, o novo cruzado Lodge
V. Crush, mais conhecido como "Little Crush", "Crushinho",
em português, resolveu iniciar nova cruzada contra o Islã,
começando pela invasão do país de Hassan
Salem, o Chiraque.
Quando criança, "Little Crush", segundo colegas
de infância, nas brincadeiras de mocinho e bandido, gostava
de imitar São Jorge - mais conhecido, aí no Brasil,
como Ogum no sincretismo das religiões afro-brasileiras.
Como o santo, montava a cavalo (algum colega escalado para desempenhar
esse papel) e, com a lança na mão direita, cutucava
o dragão da maldade, outro infeliz companheiro de folguedos,
escolhido, obviamente, contra a sua vontade, para representar
o monstro fictício.
Nas ocasiões em que cabia a ele fazer o papel do cavalo
ou do dragão, subornava seus colegas, mais pobres, pagando-lhes
sorvetes, pirulitos, balas de goma, chocolates ou chicletes. Dessa
forma, sempre adormecia imaginando-se um novo São Jorge,
mas, invariavelmente, acordava, aos berros, dizendo à mãe,
assustada, que acabara de ter o mesmo pesadelo de sempre: de repente,
caía do cavalo e, aos poucos, transformava-se em repelente
dragão, soltando fogo pelas narinas.
Após muitos anos de terapia, o pesadelo começou
a mudar. Já adolescente, acordava, sobressaltado e suando
frio, vendo-se cercado por uma legião de mouros, que o
perseguiam a cavalo, fazendo girar suas enormes cimitarras cada
vez mais próximas do seu pescoço.
Por sua vez, o ditador Hassan Salem confidenciou a amigos de infância,
em um programa de tevê para crianças, que sua brincadeira
predileta, nos subúrbios pobres de Magdá, também
era a de mocinho e bandido, só que os mocinhos eram os
devotos de Alá e os bandidos, os cristãos, com enormes
cruzes vermelhas, desenhadas sobre túnicas de linho.
Da mesma forma que seu desafeto "Crushinho", Hassan
também ia para a cama feliz, pois sabia que dali a pouco
começaria a assistir a seu sonho predileto: ele no papel
de Saladino expulsando os cristãos de Jerusalém.
Talvez para se vingar, Saladino, que era curdo, o fazia acordar
em meio a um terrível e recorrente pesadelo: os curdos
jogando gás mostarda sobre os chiraqueanos, que, em vão,
tentavam esconder-se nos porões das casas.
Meus leitores, aí no Brasil, devem estar curiosos para
que eu analise os prováveis efeitos da guerra de Crush
contra o Chiraque para a América Latina. Bem, para começo
de conversa, vou logo dizendo que, no curto prazo, não
prevejo grandes problemas, uma vez que Brasil (já produz
80% do petróleo que consome), Argentina, Venezuela e México
têm petróleo suficiente, no caso de um eventual corte
nas exportações provenientes do Golfo Pérsico.
A questão mais delicada deverá surgir no médio
prazo, quando, terminadas as operações bélicas,
os capitais americanos irão concentrar-se inicialmente
no Oriente Médio e, logo depois, na Ásia.
Críticos da política externa de Crush costumam dizer
que os americanos estão de olho no petróleo chiraqueano,
que é de boa qualidade, barato e abundante. E estão
mesmo, mas esse petróleo, ao contrário do que eles
imaginam, não será importado para ser queimado nos
Estados Unidos. Ele servirá como combustível para
expandir a globalização da economia, liderada pelos
Estados Unidos, em todo o Oriente Médio e na Ásia.
E é aí que mora o perigo. A política externa
do republicano Crush baseia-se em parcerias seletivas na Europa,
das quais França, Alemanha e Rússia estão,
pelo menos temporariamente, excluídas, para fazer o capitalismo,
na sua versão american way of life, consolidar-se
definitivamente entre as nações adeptas do islamismo
e os demais países emergentes asiáticos, liderados
pela China.
O problema é que nesse processo toda a África e
a América Latina ficam de fora. Para elas, estão
reservadas apenas migalhas desse fantástico "banquete".
Em outras palavras, essas duas regiões ficarão cada
vez mais dependentes dos investimentos europeus, principalmente
alemães e franceses, que se opuseram ostensivamente à
estratégia crushiana.
Só existe uma maneira de fugir dessa exclusão: latino-americanos
e africanos terão de aumentar suas trocas comerciais e,
ao mesmo tempo, realizar reformas profundas em suas economias,
com a finalidade de distribuir melhor a renda e de gerar riquezas.
Caso contrário, se ficarem brigando entre si, como têm
feito até agora, continuarão a andar de lado.
Dentre todos os países latino-americanos, o Brasil, devido
ao enorme potencial da sua agricultura, que produz diversos alimentos
destinados à exportação, é o que tem
melhores chances de furar o bloqueio dessa futura exclusão.
Mas, para alcançar tal meta, será necessário
duplicar, em quatro ou cinco anos, o total de suas exportações
e também de suas importações.
Um consolo para o Brasil e toda a América Latina é
que, se a estratégia de Crush der certo no Oriente Médio,
e os americanos o reelegerem daqui a dois anos, a criação
da região de livre comércio das Américas,
mais conhecida como Alca, será esquecida, ou, pelo menos,
"hibernada", até que se eleja um presidente democrata
para os Estados Unidos.
Em artigos futuros, se a guerra durar mais tempo do que os "falcões"
americanos planejaram, tentarei explicar aos leitores brasileiros
por qual motivo ianques e ingleses (notem os leitores que não
estou usando o termo britânicos de propósito) gostam
tanto de meter o bedelho na casa dos outros.
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em Antropologia Urbana
por Oxford, brasilianista e autor de vários livros e ensaios
acadêmicos sobre a inutilidade do folclore e das cruzadas. |