Historiador procura
descendentes das feras
famosas do cinema

Fotos de L. B. Mayer

Três "astros" de Hollywood já falecidos: Cheetah, dos filmes de
Tarzan, a Mosca da Cabeça Branca e o famoso Louie, o leão da Metro

Por Dolores Lima Claiborne
Enviada especial a Hollywood

Em 1943, quando tinha sete anos, Donald Crisp Ford viu o filme "A Força do Coração", em que a cadela Lassie é vendida para um nobre inglês porque seus donos precisam de dinheiro, deixando a filha inconsolável. "A partir daí, não havia ninguém no cinema que não estivesse chorando ou pelo menos com um nó na garganta", segundo ele relembra. "Eu chorava sem parar, a ponto de minha mãe me pegar no colo para me acalmar".

Crisp Ford, que tem hoje 70 anos, diz que foi assim que passou a se interessar não apenas pela cadela Lassie, mas por todos os animais que Hollywood mostrou na tela. Jornalista, professor de história e ecologista ortodoxo, ele explica que aprendeu com o pai a amar os animais e desde então tenta salvá-los da exploração que o cinema vem fazendo há várias décadas, usando-os como se fossem coisas descartáveis.

"Você sabia que muitos cavalos morreram nos anos 40, principalmente nos filmes de faroeste, porque botavam um fio de aço invisível nas cenas de perseguição entre mocinhos e índios, só para os animais tropeçarem e caírem?", ele pergunta visivelmente indignado.

Por isso e pela curiosidade de descobrir o que aconteceu com Lassie, com o famoso leão da Metro, o gorila de King Kong, o tubarão do filme de Steven Spielberg e muitos outros, Crisp Ford se envolveu numa pesquisa para encontrar os descendentes das feras do cinema. É um trabalho que já dura 40 anos e tem trazido resultados surpreendentes, afirma. Um deles, verdadeira raridade, é que ele encontrou uma foto de 1958 mostrando a morte da mosca que serviu de modelo para o filme "A Mosca da Cabeça Branca", velha e famosa ficção científica sobre um cientista que faz ousada experiência e se transforma num monstro, metade homem, metade mosca.

O Louie da Metro

Naturalmente que todos os animais que eram astros em Hollywood nos anos 40 e 50 já morreram, mas Crisp Ford, como pesquisador incansável, e mais ainda como fã de cinema, continua sua busca, à procura dos descendentes das feras famosas. Ele explica que a maioria é de bisnetos ou tataranetos, segundo calcula.

"Saiba que depois de anos de pesquisas, viagens e muitas checagens", ele garante, "já descobri Konking, um gorila muito feio, descendente direto do King Kong do cinema, trabalhando num circo mambembe em Chicago. A engraçada e muito esperta Cheetah, dos velhos filmes de Tarzan, que viveu até os 50 anos, deixou nada menos que seis filhotes, um dos quais eu descobri na casa de um treinador, também fã de cinema. E conseguiu convencê-lo a lhe vender a macaquinha, por 8 mil dólares. Fanático pelos livros de Tarzan, ele deu ao filhote o nome de Edgar, em homenagem ao autor das histórias, Edgar Rice Burroughs", conta o pesquisador.

Crisp Ford explica que, quanto mais recente é a aparição do animal num filme de sucesso, mais fácil é encontrá-lo ou seus descendentes. Foi o caso de Stevie, filho do tubarão de verdade usado em algumas cenas do filme "Tubarão", de Steven Spielberg.

"Eu simplesmente perguntei ao diretor assistente do filme sobre o paradeiro do tubarão e ele me disse que já havia morrido mas deixou vários herdeiros.Um deles, o Stevie, eu fui encontrar num aquário no Havaí".

No amplo jardim de sua mansão nos arredores de Los Ângeles, cercado por animais de todos os tipos, inclusive uma cobra gigantesca, que segundo conta serviu de modelo para o monstro mecânico do filme "Anaconda", o historiador, tendo ao lado a mulher, Mary Shelley, e o cachorrinho Boxoffice (que não é filho de nenhum animal famoso), Crisp Ford conta que seu maior sonho é encontrar os descendentes de Louie Mayer, o lendário leão da Metro. "Já segui várias pistas", ele afirma. "A última delas dizia que o Louie estaria em poder de um filho adotivo de Greta Garbo, que foi a maior estrela do estúdio. Fui até o Alasca verificar. Só que tudo não passou de boato. Mas não desisto, vou continuar a busca até encontrar".