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Fui
recebido no ministério por uma senhora gorda, com um vestido
colorido e o cabelo com trancinhas amarradas com laços.
Uma falha imperdoável. Soube depois que não era
uma senhora gorda, mas um assessor de imprensa de Gilberto Gil,
o novo Ministro da Cultura, nesta minha segunda entrevista no
Brasil este ano. Há anos sou grande admirador do cantor
Gil, então, vou conhecer o ministro Gil.
A curiosidade sobre o país na minha pequena cidade de Porkville,
Iowa, é muito grande. Não podia deixar de informar
seus 1.240 habitantes e outro tanto de leitores.
No caminho até o ministério vi, ainda abandonado,
o Rolls Royce que deu vexame na posse do presidente Lula, talvez
por isso, os ingleses perplexos haviam sumido.
Falando mal o português, pouco entendi do que foi dito na
entrevista que segue, pois o intérprete saía e entrava
na sala a cada cinco minutos, atendendo delegações
de todo o país que apareciam em busca de apoio e verbas
para os desfiles de Carnaval.
Perdão, leitores, por uma ou outra informação
mal-entendida e mal-interpretada.
Stanley
O. Laurel- Prazer, senhor ministro. Folgo em saber que, além
de cantar bem, e ser mundialmente famoso, agora o senhor empunha
a bandeira da cultura tão diversificada deste país
imenso (ganhei ao entrar um CD de um assessor, intitulado "Metas
e Canções do Ministério").
Ministro-
A Bahia é linda, meu santo. (som de capoeira ao fundo)
SOL-
De música, sei do que o ministro é capaz. Como pensa
em trabalhar em outras áreas, como literatura, arte e mesmo
o folclore, da qual sua pátria é rica? (entra uma
senhora chamada Canô e começa a fazer tranças
na cabeça do ministro).
M-
A Bahia é linda, meu santo. Conhece trio elétrico?
A cultura brasileira pode ser resumida num trio elétrico
(entra a senhora gorda de vestido, digo, o assessor de imprensa,
com uma bandeja de coisas fumegantes). Quer um acarajé,
meu santo?
SOL-
Obrigado, ministro. Pela aparência, acho que isso foi servido
no avião e ainda me queima a língua (risadas gerais).
O que é trio elétrico?
M-
Trio elétrico é um caminhão com som. Um monte
de felizes baianos cantando em cima e mais baianos atrás
dele, sambando e cantando. É a pura cultura brasileira.
Minimalista, se é que entende?(agora, ao fundo, som de
axé music).
SOL-
Sim, entendi. Um caminhão com som e um monte de baianos
felizes atrás. Mas e a literatura, tão rica, de
vocês?
M-
A Bahia é linda, meu santo. Quer melhor lugar para se lançar
um livro que um trio elétrico? Lá em cima, o autor,
com um monte de baianos cantando. Atrás, baianos com livros
na mão, sambando, e estendendo o livro para o escritor
autografar. Uma coisa típica e bem temática. Sacou?
SOL-
(Levei algum tempo para entender o que me pareceu uma gíria,
o tal de "sacou", pois eu confundi com "socou").
Realmente bem típico, ministro. E o patrimônio histórico,
Ouro Preto, tombado pela ONU? (Entra no gabinete um tal de Caetano,
cantando baixinho Menino do Rio).
M-
Problema nenhum, meu santo. A Bahia é linda. Estamos pensando
em derrubar casarões históricos de um dos lados
da rua. Só assim caberá lá um trio elétrico.
Mineiro pensa que cultura é só procissão
e igrejinha barroca, Vamos folclorizar federativamente o trio
elétrico. Trio elétrico é minimalista, é
alegria e cultura, estendidas ao povo, um resumo de baianos cantando
e mineiros (pode até ser, por que não?) sambando
atrás.
SOL-
Estou começando a entender. Um monte de baianos cantando
em cima de um trio elétrico e brasileiros de todos os estados
sambando atrás, em qualquer lugar do país (entra
uma certa Bethânia, sacudindo incenso fumegante).
M-
Está sacando bem, meu santo. Pensamos em exportar trios
elétricos. Baianos cantando em cima e árabes, judeus,
americanos, chineses e norte-coreanos sambando atrás. Fim
das guerras, é a paz mundial.
SOL-
Bem pensado, meu santo... desculpe... Senhor Ministro. Mas e as
obras de arte, telas, pinturas? Onde entrariam nisso tudo?
M-
Percebi que o senhor nunca viu um trio elétrico. Ele tem
ao lado do caminhão um espaço enorme para se pendurar
telas. Um monte de baianos cantando em cima e o povo sambando
atrás e, ao lado, apreciando as obras. Fim do elitismo
de galerias. A Bahia é linda.
SOL-
Realmente interessante, ministro. Poucos gastos, verba minimalista
apenas para trios elétricos (um grito estridente ao fundo.
Me explicaram que era uma tal de Elba Ramalho ensaiando).
M-
É isso, meu santo. Já tem a entrevista e minhas
desculpas. Tenho de sair correndo. Agora vou com Caetano, Gal
e Bethânia pegar jatinho e ver pôr-do-sol em Itapuã.
A Bahia é linda. E, Mr. Laurel, não se esqueça
de ver o nosso Caetano cantando no Oscar!
Voltei
para o hotel e marquei passagem para o próximo vôo,
de volta para Porkville, Iowa. Rasguei a maior parte das minhas
anotações. Estou pensando em virar argentinista.
*
Stan. O. Laurel, brasilianista e agora também
argentinista, é mestre em sociologia, paleontologia, folclore
latino-americano e centro-africano. Considera a cultura musical
baiana no mesmo nível de importância da que surgiu
em Nova Orleans, embora ache que nada se iguale a Louis Armstrong
e Jelly Roll Morton. |