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Ex-cantora
lírica
vai para as ruas
salvar gatos ameaçados durante o Carnaval
 
Serge e Auguste quase viraram churrasquinho
no Carnaval de 1988.
Por
Maria Montez Gonçalves
da nossa equipe de editorialistas
Há
30 anos, Annelise Pucelle Bénite não faz outra coisa
no Carnaval: enquanto o mundo todo cai na folia, ela anda pelas
ruas tentando salvar o maior número possível de
gatos, ameaçados por uma selvagem tradição:a
morte nas mãos de fabricantes clandestinos de tamborins
e vendedores de churrasquinhos.
Desde que conseguiu salvar, no último minuto, um gatinho
que estava prestes a ser morto pelo dono de uma barraquinha no
sambódromo do Rio de Janeiro, em 1973, Annelise decidiu
fazer de sua vida uma cruzada contra o que ela chama de "uma
brutalidade inominável contra os animais", notadamente
os gatos, as principais e mais inocentes vítimas dessa
prática que todos negam, mas já virou uma cruel
tradição brasileira, principalmente na época
carnavalesca.
Aos 72 anos, Annelise, antiga cantora lírica, nascida na
Guiana Francesa e desde 1958 morando em Copacabana, no Rio, diz
que abandonou a carreira quando se casou com um jóquei
brasileiro e veio morar no Brasil. Com a morte do marido, em 83,
comprou um sítio na região serrana de Petrópolis
e passou a criar gatos, sua paixão, e outros animais domésticos.
Quando soube, por uma amiga, que os gatos eram caçados
e sacrificados para virarem tamborins e também churrasquinhos
nas barracas de alimentação em toda a cidade, ficou
tão indignada que decidiu iniciar uma cruzada durante o
Carnaval, 30 anos atrás, para salvar os felinos.
Seguidores
e sobreviventes
Em
seu sítio, cercada de, pelo menos, 30 gatos de várias
raças, mas tendo no colo e no sofá um dos seus três
prediletos, Serge, Auguste e Pintô, que salvou da morte
em 1988,Annelise diz que, este ano, conseguiu resgatar pelo menos
12 gatinhos, em suas andanças pelas ruas do Rio durante
o Carnaval.
"Um deles", ela conta, com seu forte sotaque francês,
"estava numa espécie de gaiola, junto com dez outros,
prontos para virar churrasquinho. A maioria não passava
de filhotinhos. Quando vi, dei um grito tão forte e indignado
que o homem da barraquinha se assustou e perguntou se eu estava
passando mal. Então eu disse que, se ele não libertasse
os gatinhos, eu faria um escândalo e chamaria a polícia
para prendê-lo. Assustado, ele soltou na hora os pobrezinhos",
ela explica, apontando para a varanda, onde estavam os gatos que
conseguiu salvar naquela noite. O mais brincalhão de todos
era Lechat, que ela conseguiu salvar no Carnaval de 97.
Embora não tenha ilusão quanto a sua cruzada, que,
segundo sua pesquisa, consegue salvar da morte uma parcela ínfima
dos gatos sacrificados todos os anos no Carnaval, Annelise garante
que vai continuar sua cruzada enquanto tiver saúde. "E
podem ter certeza", afirma, "que, quando eu morrer,
vou deixar pelo menos uma meia dúzia de seguidores e pelo
menos 400 gatos que pretendo salvar dessa prática selvagem".
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