A posse do presidente
e o futuro do Brasil

Quem lê minha coluna diariamente no Weekly News, de Porkville, minha pequena cidade do Estado de Iowa, Estados Unidos, sabe de minha admiração, isenção e lisura como incansável analista desse gigante em coma que é o Brasil.

Estive na posse do novo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Não poderia faltar. E decidi ficar um mês para conhecer mais o país e seu novo governo. Meu amor pelo Brasil começou quando lia, ainda adolescente, sobre a Coluna Prestes em um panfleto apócrifo, que me era dado por um deputado brasileiro que vinha ver seu saldo bancário em Miami. Desde então, meus olhos cansados estiveram sempre voltados para essa imensa terra de um povo gentil e brincalhão.

Buenos Aires nunca mais será a mesma depois da posse desse líder sindical, que deixou o sertão árido do Nordeste e alcançou o mais alto posto da nação, além de seu primeiro diploma de supletivo pinçado nas urnas.

Os ares são outros. O que se vê agora, em suas avenidas largas do Planalto Central, são velozes Nivas e Mazdas, sendo atrapalhados no trânsito por um Rolls Royce abandonado, desde a posse, rodeado por mecânicos vindos da Inglaterra , perplexos e até agora sem nada entender.

Num bar qualquer, em mesas de plástico na calçada, pude encontrar Fidel Castro tomando uma bebida chamada caipirinha, fazendo discursos de quatro horas e meia para uma platéia barbuda. Também vi Hugo Chávez, enchendo galões e mais galões em postos de gasolina e correndo apressado de volta ao aeroporto.

Intelectuais e artistas, que antes empunhavam fuzis em guerrilhas no Alto Araguaia, hoje passam apressados com pastas executivas. Um homem vestido de negro, sentado à beira de um rio - que mais parece um lago - chora. Soube depois que era o escritor e acadêmico,campeão de vendas Paulo Coelho, aborrecido por não ter sido convidado para nenhum cargo importante.

Ao som do atabaque e um violão, grupo de baianos carregando galinhas pretas, charutos e velas se dirigem ao Ministério da Cultura. É o dia de despacho com o ministro Gilberto Gil.

Vez por outra, esbarram em mim seguranças que perguntam, preocupados, se, por acaso, eu tinha visto o presidente Lula, que escapara mais uma vez para abraçar seu povo.

Hesitante, tive que aceitar um marmitex que, disseram, era minha cota diária do futuro projeto Fome Zero, apesar de não gostar de carne-de-sol nem de farinha de mandioca.

Os ricos, me informaram, já desenterraram a prataria e seus cristais. Nada mais há que temer.

Parodiando meu amigo de bancos escolares e colega de profissão Hemingway, Buenos Aires é uma festa!


* Stan O. Laurel, brasilianista americano, é especialista em Mercosul, Alca, Nafta, Gatt, Nintendo, Mario Bros., posses presidenciais e profundo conhecedor da cultura brasileira, tanto erudita quanto popular. E vibrou com o novo Ministro da Cultura. Mas confessa que geografia não é o seu forte.