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Finalmente
chegou o verão. A época mais esperada do ano. Ou
pelo menos para aqueles que como eu e os leitores - presumo -
demos duro o ano inteiro e vamos agora desfrutar das merecidas
férias. Uma semana, duas, um mês, dois e até
mesmo, para os mais afortunados, três meses, não
importa quão longo seja o período das férias,
o que vale é descansar.
Sempre
que abordo tal tema, em conversas com amigos ou em palestras para
jovens universitários, uma dúvida me assalta a mente:
como será o lazer daqueles bem-aventurados que nada fazem
o ano inteiro? A dúvida é pertinente porque não
poucas pessoas que conheço, que pertencem ao restrito clube
dos militantes contumazes do dolce far niente, me garantem
que essa atividade é muito estressante.
Estudioso
do comportamento humano, apaixonado pelo Latin American way
of life, embora nascido e criado na Inglaterra, sou obrigado
a destacar desde logo a diferença do conceito de lazer
entre habitantes desses dois lugares. Por exemplo, nós,
ingleses (ou melhor dizendo britânicos, segundo insiste
Jonathan, meu revisor, que é galês), gostamos de
usar roupas e sapatos velhos durante os fins de semana.
Tal
hábito nos remete à lembrança de que, em
nossa casa e apenas nela, estamos totalmente livres do terno e
da gravata e de suas habituais formalidades e chatices cerimoniais.
Ou seja, o lazer britânico pode resumir-se a calças,
camisas e sapatos ou chinelos largos e confortáveis. Nada
de apertos.
Ao
contrário, latino-americanos costumam caprichar nas roupas
e no visual quando estão de folga e nas visitas a amigos
e familiares, principalmente as mulheres.
Em
outras palavras, nós, britânicos, relaxamos no lazer;
já, vocês, brasileiros, dão um trato na aparência,
ou, no dizer machadiano, empertigam-se.
Mas
essa não é a única diferença. Há
outras e mais interessantes. Aí, em São Paulo, por
exemplo, fui informado por amigos que lecionam na USP do valor
dado ao trabalho e por extensão à ausência
dele (o lazer) por ibéricos.
Conta
a lenda que um português, cujos antepassados haviam feito
fortuna no comércio entre seu país e o Brasil, gabava-se
para um amigo espanhol de que seus familiares não trabalhavam
havia três gerações, já que a riqueza
acumulada lhes permitia tal extravagância.
A
resposta do amigo hispânico (algumas versões descrevem-no
como sendo da Andaluzia, outras, classificam-no como basco ou
galego, e há ainda uma terceira corrente na qual nosso
herói é catalão) é rápida e
certeira: "Qual é a vantagem, caro amigo? A minha
família, talvez você não saiba, não
trabalha há mais de três séculos".
A
série "por que me ufano do passado colonial"
é vasta. Ela inclui a lenda do pirata holandês que
não só enchia seus galeões de ouro, mas que
também reservava parte dos porões de suas naves
para levar enormes quantidades de terra e pedra para seu país.
Lá, eram jogadas nos diques de contenção
do mar.
Há
também aquela dos nobres franceses que financiavam a empreitada
colonial pelo simples prazer e orgulho de, um dia, poderem flagrar
a multidão de colonizados, incrédula, clamar, em
sofrível francês, carregado de sotaque creole: "Ça
c'est Paris!"
Bem,
mas voltemos ao tema central do artigo, que é o lazer e
o trabalho. Aqui, na Inglaterra, também circula uma anedota
clássica sobre o amor de nossos conterrâneos pelo
trabalho. Diz ela que os ingleses gostam tanto dessa atividade
que resolveram ocupar todas as ilhas do mundo para inspecionar
se nelas realmente tal atividade era praticada. Pelos nativos,
of course!
Para
encerrar este ensaio sobre o trabalho, pois já estou ficando
meio cansado, lembro aos leitores brasileiros o que pensava sobre
o assunto o ilustre repentista nordestino, Ascenso Ferreira. Aos
que ainda não o conhecem, recomendo a leitura de seus repentes,
devidamente anotados e comentados, por vários biógrafos,
a maioria dos quais pernambucanos.
Sobre
mestre Ascenso, como é conhecido por lá, há
documentação valiosa e extensa no Departamento de
Cordel, Emboladas e Repentistas da Universidade Federal de Pernambuco
(Ufepe), aberta à consulta de estudiosos.
Ascenso
Ferreira acreditava não haver qualquer nobreza no trabalho,
até porque a palavra originou-se do termo latino tripalium,
que significa instrumento de tortura, usado para punir inimigos
renitentes dos romanos. Para o repentista, havia hora e lugar
para tudo, menos para essa odiosa e desprezível atividade.
"Hora
de comer, comer", dizia o repentista, em seu famoso improviso
sobre o tema. "Hora de brincar, brincar. Hora de dormir,
dormir. Hora de vadiar (fornicar na linguagem coloquial nordestina),
vadiar. Hora de trabalhar, perna para o ar que ninguém
é de ferro".
Sábio,
Ascenso! Aproveito a deixa do repentista para informar aos leitores
que durante as próximas duas edições do SacolãoBrasil,
estarei no gozo de merecidas férias e talvez, nunca se
sabe, até mesmo vadiando.
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em Antropologia Urbana
por Oxford,
brasilianista e inimigo jurado de qualquer forma de trabalho formal,
informal, manual e, principalmente, intelectual.
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