Os meus melhores filmes do ano

Como qualquer leitor politizado não ignora, as odiosas listas de "melhores do ano" são invenção nefasta, criadas pelos tubarões americanos, notadamente os de Hollywood, para vender de forma mais fácil seus intragáveis produtos em todo o mundo. Não importa se o produto (no caso, filmes) seja de péssima qualidade. Tudo o que o produtor tem a fazer é lobby, e sempre oferecer subornos, daqueles que por lá eles chamam de "gifts" (presentes e outras vantagens). Com isso, seu filme de terceira categoria é escolhido como um dos melhores do ano, é incluído numa lista final, e o resto, é só contar os dólares nas bilheterias.

Por tudo isso, e porque me considero um crítico independente, que tem responsabilidades apenas com seus leitores e sua consciência, decidi selecionar apenas três filmes entre as grandes obras de 2002. Mesmo porque não houve muitos mais para se escolher. Não por acaso, nenhum deles veio daquele paraíso da mediocridade: Hollywood. Vamos a eles.

Nenhum filme me emocionou tanto, nem mexeu tão intensamente com meu intelecto e meu coração no ano passado como o romeno Homar Liliac (Lagosta Lilás). Sua maravilhosa simplicidade, escondendo um roteiro de grande profundidade e filosófica observação, mostra que seu diretor e roteirista, Acru Grepfrut, é um consumado cineasta e filósofo do cotidiano, embora tenha apenas 20 anos. A cena em que o irado camponês invade a chefatura de polícia, tentando resgatar seu rebanho de ovelhas, confiscado pelo militar de extrema direita, boçal e prepotente, está entre as mais belas e delicadas que o cinema mostrou nos últimos 70 anos. E na jovem e belíssima Yelena Fluture (que abandonou promissora carreira na milícia armada de seu país para seguir a carreira de atriz) o cinema mundial acaba de revelar uma de suas mais fulgurantes estrelas.

O segundo maior drama de 2002 é o finlandês Kana Kuolema (Galinha Morta), uma revolucionária e emocionante adaptação moderna de "Em Busca do Tempo Perdido", de Stendhal. Com inteligência, ousadia, e sobretudo muito talento, o diretor servo-croata Sladoled Liker alcançou o que dezenas de cineastas tentaram durante décadas, sem sucesso: fazer do magnífico e extenso romance francês um modelo de simplicidade e percepção. E a seqüência em que as marionetes do circo mambembe ganham vida e se vingam do establishment, matando o cruel feitor da fazenda coletiva, é inspiração de gênio.

Minha terceira escolha, que poderia perfeitamente estar também em primeiro lugar, é a comédia haitiana Oú Est la Fourmi Sauvage? (Nosso Derradeiro Adeus), dirigida pela maior revelação de cineasta do ano que passou, Aristide Duvalier Malin. Um tema difícil, repleto de ciladas melodramáticas (a redenção de um agricultor homossexual, que se tornou carrasco durante a ditadura de Papa Doc) torna-se, nas mãos delicadas e irônicas de Malin, um triunfo de humor e sátira. Um conselho a todos: fiquem de olho no cinema do Haiti. Com certeza muitas outras obras-primas virão de lá.