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"Papai
Noel odeia a América Latina e qualquer outra região
exótica do planeta. Compreende-se, o bom velhinho deve
gostar mesmo é de lugares frios, montanhas cheias de neve,
pinheiros e trenós puxados por renas. Por isso, acredito
que, infelizmente, as crianças desses lugares jamais receberão
sua visita".
A
frase não é minha. Ela consta dos diários
de um certo James Cook, espécie de confidente e secretário
particular do grande John Maynard Keynes, criador, dentre outras
coisas, do Banco Mundial (Bird) e do Fundo Monetário Internacional
(FMI).
No
vôo entre Londres e Nova York, no final de novembro, a caminho
da reunião anual de conselheiros internacionais de um grupo
americano de investidores em países emergentes, folheio
a esmo algumas anotações do mordomo de mister Keynes.
Sempre
que faço isso, me divirto bastante. Saído dos romances
de Agatha Christie, James Cook, já falecido, parece-me
um filósofo do cotidiano, cheio de sabedoria e de humor.
Ainda
estudante, em Oxford, recebi seus diários e algumas anotações,
que fazia em sua agenda, de uma tia distante, que morava em Liverpool.
Obviamente, logo me interessei por eles no afã de descobrir
confidências e comentários de Keynes.
Abri
um de seus diários no dia 23 de agosto de 1953. Lá
estava escrito: "Hoje tirei o dia para ser feliz!" Curioso,
procurei o dia 24 para verificar se havia algum comentário
sobre sua disposição manifestada no dia anterior.
Na margem esquerda da agenda, estava escrito, com tinta vermelha:
"Não consegui!"
O
mordomo de Keynes anotava religiosamente todas as viagens que
fazia em companhia do patrão. Numa delas, já de
volta à Ilha, escreveu o seguinte comentário: "Por
que será que, quando estão no exterior, apenas os
ingleses assumem sua origem enquanto os demais cidadãos
do reino (galeses, escoceses e irlandeses) declaram-se britânicos?"
Perspicaz
como todo mordomo, notou que ingleses famosos preferem secretários
do sexo masculino ao contrário dos americanos e dos demais
europeus. A resposta que achou para explicar tal preferência
é antológica: "Os homens não têm
tensão pré-menstrual".
Sobre
hábitos das mulheres inglesas, anotou, em algum canto dos
seus diários, sem data específica: "Em algum
momento da vida, geralmente após o casamento, as evas do
mundo inteiro, por mera curiosidade, têm amantes. Já
nossas conterrâneas se contentam com bolsas de água
quente".
Os
hábitos do patrão também não passaram
despercebidos aos olhos críticos de Cook. "Nunca conheci
alguém mais dramaticamente inglês do que mister Keynes.
Fala pouco, mantém o mesmo tom de voz em quaisquer circunstâncias,
é cerimonioso e, sobretudo, discreto.
Uma
única vez o vi nervoso. Aconteceu em uma tarde, quando
entrei em seu escritório, alguns minutos atrasado, para
servir-lhe o chá das cinco. Em vez do habitual "boa
tarde, James", disse-me apenas: "Sete gotas de limão"...
Mas,
a esta altura do artigo, o leitor brasileiro deve estar se perguntando
o que é que ele tem a ver com o mordomo de Keynes e suas
frases filosóficas? Peço-lhe, leitor amigo, só
mais um pouco de calma.
É
que, por mais curioso que possa parecer, todas as anotações
de James Cook fazem sentido em qualquer contexto que se lhe dê.
Por exemplo: a frase sobre Papai Noel também faz sentido
no contexto econômico.
Explico
melhor: a nota sobre o bom velhinho foi escrita por Cook ao pé
de uma cópia do documento oficial do encontro de famosos
economistas da época, dentre os quais Keynes, no ano de
1944, em Bretton Woods, nos Estados Unidos. O resultado dessa
reunião foi um acordo que antecipou a organização
da economia mundial, após a Segunda Guerra, ainda em curso.
Para
não cansar o leitor, lembro apenas que, por entendimento
consensual das autoridades presentes à reunião de
Bretton Woods, foram recomendadas algumas medidas para a reconstrução
da economia européia, tão logo fosse assinado o
armistício.
Algumas
delas - como, por exemplo, a criação do Banco Mundial
para a Reconstrução e Desenvolvimento, o Bird, de
acordo com a sigla em inglês; do Fundo Monetário
Internacional, o hoje famigerado FMI; e um programa de ajuda à
Europa Ocidental, mais conhecido como Plano Marshall - são
do conhecimento público.
Mas
o Acordo de Bretton Woods previa muito mais do que isso. Segundo
se depreende da leitura das atas completas daquela famosa reunião,
cuidadosamente guardadas, num cofre de segurança máxima,
no prédio anexo ao do Tesouro Federal dos Estados Unidos
da América, para se evitar futuras guerras, recomendava-se
que países mais industrializados abrissem gradativamente
seus mercados para mercadorias provenientes de nações
menos desenvolvidas.
Mais
do que isso: sempre que países de uma mesma região
tivessem quaisquer dificuldades financeiras ou comerciais, decorrentes
da repentina desvalorização dos seus produtos de
exportação, o FMI (pasmem, leitores) se obrigava
a prestar-lhes ajuda financeira em moeda forte, durante o tempo
que fosse necessário, cobrando-lhes, passada a crise, apenas
juros simbólicos.
Qualquer
semelhança com a realidade é mera coincidência!
Em
outras palavras, a América do Sul, o Caribe, a África
e as nações pobres da Ásia e da região
do Pacífico estão aguardando desde a década
de 50 a ajuda do FMI. Ao invés disso, a vetusta instituição
envia-lhes periodicamente chatíssimos cobradores internacionais.
Mas
por que isso aconteceu? Novamente, valho-me das anotações
dos diários de James Cook, já que, como todos sabem,
Keynes é professor de pós-graduação
em Economia, lá no Paraíso, desde 1946.
Por
sua vez, o mordomo de Keynes só morreu, quase centenário,
em 1989. "O problema dessas nações, menos desenvolvidas",
comenta Cook, com incrível lucidez, "é que
elas não têm petróleo ou qualquer outro minério
de valor estratégico, não têm arsenais nucleares
e só tiveram certa importância como alvos da disputa
ideológica, ocorrida entre Estados Unidos e União
Soviética, durante o período da guerra fria".
Numa
anotação conclusiva sobre o tema, Cook constata,
com proverbial ironia, que, se não houver reação
dos deserdados, como, por exemplo, uma inesperada invasão
de Nova York por milhares de iguanas das Ilhas Galápagos,
comandadas por um exército de moais (aquelas estátuas
gigantes da Ilha da Páscoa), "os hoje chamados países
emergentes, sem petróleo e sem armas nucleares, estarão
fadados a se transformar em gigantescos zoológicos do afluente
clube dos adeptos da globalização desenfreada".
Está
explicado, caro leitor, por qual motivo Papai Noel detesta países
de clima quente e úmido. A única saída para
brasileiros, costa-riquenhos, indonésios, sul-africanos,
nigerianos e filipinos é mudar o clima de seus países.
(*)
Kenneth Goodson é Ph.D. em Antropologia Urbana
por Oxford, brasilianista e inimigo público Nº 1 de
Father Christmas (Papai Noel, para os ingleses). |