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Uma
história de Natal
Papai
Noel Tem Um Só
Por
Luiz Inácio Lima da Silva*
Nos
meus tempos duros de trabalho no canavial, o único momento
sossegado que eu tinha era quando a gente recebia o salário
e dava uma escapada pro armazém do Zé do Pito, que
ficava na vila, pra tomar umas e outras. Eu era homem feito, com
35 anos, mas eu e meu irmão, o Jovino, íamos escondido
porque se meu pai pegasse a gente, era castigo brabo, uma cacetada
no lombo, às vezes mais de uma,dependia do que a gente
"aprontava". Ele não perdoava quando a gente
gastava o pouco salário em bebida. Genivaldo, meu pai,
era homem duro, religioso, e não admitia bebida e gastança
pois ele sabia que depois ia faltar pra manter a nossa família,
que era de sete pessoas. Mas o que deixava meu pai furioso, de
perder a cabeça e ficar violento de verdade, era alguém
zombar da religião.
A
história que vou contar aconteceu no dia de Natal de 1975.
O dono do canavial, coronel Inocêncio, achou de pagar um
pouco mais de dinheiro pros cortadores de cana, por causa do dia
especial, e aí não deu outra. Eu saí correndo
pro armazém do Zé do Pito e tomei todas. No caminho
pra casa, muito "chumbado", dei de cara espantado com
uma porção de Papai Noel. Nunca tinha acontecido
aquilo lá no sertão e quando cheguei em casa trocando
perna e falando torto, contei que eu vi um monte de Papai Noel
na beira da estrada. Meu pai, que estava descansando, levantou
da cama, deu um berro, olhou zangado pra mim e perguntou: "O
que você viu, seu moleque safado?!" E me deu um soco
bem no nariz, que começou a sangrar muito. E aí
ele disse: "Fique sabendo, sem-vergonha, que Deus fez só
um Papai Noel. A maldita cachaça, que é coisa de
satanás, é que fez você ver tantos.Vai embora
daqui, seu maldito!"
Minha mãe começou a chorar e segurou meu pai, ainda
bem, senão ele ia me bater mais ainda. Saí de casa
e só de vingança fui outra vez pro armazém
gastar o resto do dinheiro.Meu irmão resolveu ir comigo.
Já
era noite escura mesmo e a gente não agüentava mais
em pé, de tanta cachaça, cerveja e conhaque. Aí
meu irmão falou: "Ô Luiz, olha lá na
janela, tou vendo uns cinco Papai Noel!" Eu olhei pro lado
e disse pra ele: "Cinco nessa daí porque na janela
lá de trás tem pelo menos uns dez!" Todo mundo
deu risada da nossa bebedeira.
Mas de repente levei um susto do diabo quando vi meu pai entrando
no armazém e vinha na nossa direção. O medo
foi tanto que o meu porre curou na hora. Achei que ele foi lá
pra acabar de vez comigo e com o Luiz. Aí olhei bem e percebi
que ele vinha trançando perna e andando torto que nem bêbado.
Não é possível, eu pensei, o velho Genivaldo
bebendo! Mas era isso mesmo. Ele chegou perto de mim, de cara
feia e disse: "Ocês num sabem de nada! Lá da
lavoura do Bentinho até aqui no armazém eu vi pelo
menos uns vinte Papai Noel!"
Todo mundo caiu na gargalhada, eu e o Jovino morremos de rir,
de tanto alívio.Sei lá, mas acho que o espírito
do Natal baixou naquela noite no meu pai também. Mas a
lição ficou pra sempre. Ainda hoje, posso ver até
50, quando eu encho a cara, mas nunca vou esquecer: Papai Noel
tem um só.
* Luiz Inácio Lima da Silva, de 64 anos, ex-cortador
de cana em Pernambuco e ex-metalúrgico, é atual
presidente do Clube Literário, Recreativo e Esportivo
Henrique Fernando Cardoso em São Paulo.
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