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Em
meio a um ciclo de conferências sobre países emergentes
e globalização, realizado em Davos, na Suíça,
fui surpreendido por uma mensagem do meu editor aí no Brasil.
"Por favor", pedia-me ele, naquela aflição
típica de quem está fechando a edição
de um jornal, revista ou noticiário de rádio ou
tevê, envie-me um artigo urgente, para ser publicado, em
novembro, a respeito da vitória de Ruiz Perácio
da Milva, o Hula, do PI (Partido dos Informais), aí na
Europa.
Feliz
coincidência, já que a eleição de um
ex-operário para exercer o cargo de presidente do Brasil
era justamente um dos temas que estavam em debate no evento do
qual eu participava. Entre investidores europeus, há muita
simpatia por Hula. Já, do outro lado do Atlântico
Norte, a expectativa é de desconfiança e até
mesmo de certa tensão.
Ocorre
que, logo após o primeiro turno, quando já parecia
clara a vitória do candidato do PI sobre seu adversário,
Jessé Guerra, do PS (Partido dos Sabiás), cujos
filiados, segundo seus adversários mais maldosos, só
sabem cantar, credores, investidores, personalidades do mundo
diplomático e acadêmico dos Estados Unidos resolveram
realizar um jantar, em Nova York, tendo como convidados especiais
três representantes do PI (dois economistas e um político).
Embora
tenha sido convidado - assim como diversos outros ilustres brasilianistas
- para o encontro, não pude comparecer por já ter
assumido compromisso anterior, no mesmo período, em Melbourne,
na Austrália. Fiquei sabendo do que lá aconteceu
graças ao relato de um amigo londrino. Por oportuno e para
saciar a curiosidade dos leitores do SacolãoBrasil,
farei um resumo desse memorável evento.
Feitas
as apresentações de praxe, os três emissários
do PI falaram para uma platéia de cerca de 400 pessoas,
em sua maioria, empresários americanos que, em conjunto,
representavam algo em torno de um terço do PIB dos Estados
Unidos. Servidos café, sobremesa e licores e encerradas
as palestras dos brasileiros, teve início a parte mais
importante do encontro, as perguntas da platéia para os
conferencistas.
A
primeira questão, levantada por um banqueiro, foi sobre
o Movimento dos Sem-Nada (MSN) e o assentamento deles em fazendas
consideradas improdutivas. Seguiu-se uma espécie de "mantra",
que deve ser bastante conhecido de vocês, aí no Brasil,
sobre o controle que o PI diz exercer sobre o MSN. Não
satisfeito com a resposta evasiva, o banqueiro foi direto ao assunto:
"Quero saber se o MSN vai invadir terras improdutivas no
Nordeste", perguntou em tom malicioso, mas imperceptível
para os brasileiros, devido à impossibilidade de traduzi-lo.
A
resposta foi curta e precisa: "O MSN tem planos para invadir
terras improdutivas em todas as regiões do País",
confidenciou um dos economistas do PI. "Mas vocês esqueceram
de avisar a eles que os grandes latifundiários nordestinos
pediram a seus cabos eleitorais para descarregar votos em Hula?"
"Bem",
argumentou o economista do PI, "é claro que no começo
vamos evitar invasões no Nordeste". A prioridade,
acrescentou, será realizar a reforma agrária nas
fazendas de nossos adversários políticos de outras
regiões. "Como, por exemplo, na fazendo do atual presidente",
emendou o financista ianque. A platéia explodiu em ruidosa
gargalhada.
"Que
outras mudanças vocês planejam para a economia",
quis saber um industrial do setor de máquinas. O segundo
economista escalado estufou o peito para anunciar o pacto social,
o qual, segundo informou, poderia criar 12 milhões de empregos
em quatro anos. "Nada mau", comentou o industrial e,
em seguida, completou a frase: "Só se os sindicalistas
de vocês forem muito burros para aceitar um pacto social
em condições totalmente desfavoráveis".
"Mas
nós controlamos quase 80% das entidades sindicais do País",
retrucou o economista. "Como vocês conseguiram isso?",
interessou-se, intrigado, o americano. "É simples",
explicou o brasileiro: "tomamos conta dos sindicatos e chamamos
de pelegos a todos aqueles que se opuserem a nossos interesses".
O americano quis saber então o que significava exatamente
a palavra pelego. "Talvez vocês precisem de umas aulas
de democracia"..., comentou o industrial.
"É
verdade", perguntou um diplomata de carreira, que nunca servira
ainda em qualquer capital da América Latina, que o braço
direito de Hula, Bové Nereu, "recebeu treinamento
militar em Cuba, na década de 70?"
"Isso
foi há muito tempo", respondeu o político peísta.
"Hoje, ele é outra pessoa. Fez até operação
plástica para regressar ao Brasil e isso lhe deu uma nova
identidade". Mais uma gargalhada já se prenunciava
na platéia, quando o representante do PI acrescentou: "Vocês
não lembram de um filme clássico, rodado aqui, intitulado
Seconds (no Brasil, chamou-se" O Segundo Rosto ")?"
Com o nosso Bové Nereu, aconteceu o mesmo que à
personagem principal do filme, interpretada por Rock Hudson.
Nessa
altura da entrevista, a platéia já desistira de
obter qualquer seriedade dos interlocutores do PI, definitivamente
convencidos de que eles repetiriam ad nauseam, o script
previamente ensaiado. Foi aí que o repórter do Washington
Toast perguntou se os estrategistas da campanha eleitoral
sabiam estimar o número de votos que a versão lite
do candidato, que aí ficou conhecida como o "Hulinha
paz e amor", com ternos italianos e tudo, trouxera para o
PI.
A
resposta, nesse caso, foi direta e objetiva. "Nós
sabíamos que para atrair a classe média precisávamos
mudar a imagem de batráquio hirsuto que o candidato trazia
de eleições anteriores", sentenciou um dos
economistas.
Indignado
com a resposta um magnata das finanças de Wall Street não
se conteve e, em bom português, mas com aquele sotaque típico
dos americanos quando estão pê da vida, lascou: "Vocês
agem como um Exército de Brancaleone, liderado por milhões
de Quixotes militantes. Faço votos que após a posse,
ao menos, o presidente Hula se comporte como um Sancho Pança".
Seguiu-se
aquela balbúrdia e algazarra típicas de fim de festa.
A platéia começava a se dispersar. Na saída
principal do enorme salão onde fora servido o jantar, coelhinhas
vestidas como as da revista Playboy, distribuíam
bonés, distintivos, fitas e adesivos com o símbolo
do PI, um sol piscando, com a expressão "Hula lá!",
sobreposta ao desenho do astro.
A
expressão mais ouvida entre os decepcionados convidados
era uma só: "Que Deus proteja o Brasil".
Quando
ouvi esse relato, lembrei-me imediatamente do meu caro amigo,
Harold Bloom, brilhante ensaísta americano, e entusiasta
da literatura brasileira, que acabou de incluir Machado de Assis
entre os cem maiores gênios literários da Humanidade.
Ocorreu-me imediatamente uma das personagens, criadas pelo Bruxo
do Cosme Velho, em "Memórias Póstumas de Brás
Cubas", bradando: "Ao vencedor, as batatas".
Humildemente,
resolvi plagiá-lo, substituindo batatas por abacaxis: "Ao
vencedor, os abacaxis".
(*)
Kenneth Goodson é PhD em Antropologia Urbana
pela Universidade de Oxford, brasilianista e voyeur
nas horas vagas. |