"Circo só fica doente, mas
nunca morre", diz o palhaço

Por Alfio Cozze
Repórter substituto da editoria Lazer e Prazer

A entrevista do escritor, teatrólogo e engenheiro Rigoberto Lucas Beltrami, publicada anteontem por um jornal desta cidade, está causando polêmica nos meios circenses e teatrais. Beltrami contou que levou as filhas de 7 e 9 anos a um circo no mês passado e se divertiu a valer com as acrobacias e os palhaços. Mas teve uma surpresa quando olhou para o lado e viu as duas sentadas ao contrário na arquibancada, olhando para a entrada, em vez de prestar atenção no picadeiro, como ele.

"Naquele momento, percebi que o futuro do circo estava ameaçado", ele interpretou. "Se minhas filhas, que são a nova geração, não deram a mínima para as atrações do circo, aquelas que há séculos encantam velhos e crianças em todo o mundo, então só posso pensar no pior: o picadeiro e seus artistas não têm futuro".

Entre os muitos que vieram a público para contestar a opinião de Beltrami foi Jonevaldo Calim, de 65 anos, que há 50 anos ganha a vida como o palhaço Frigideira, que já mudou de nome artístico duas vezes para ver se tem mais sorte. "Essa história que você me contou sobre o tal escritor", ele explica ao repórter, é um caso isolado, não quer dizer muita coisa. Não se esqueça que há milhões e milhões de crianças e seus pais que continuam indo ao circo, sentam olhando para o picadeiro e choram e riem com o que acontece lá". Está certo, o circo não anda lá essas coisas, mas sempre se recupera... Espero..."

Concorrência

Frigideira afirma que o circo jamais morrerá e, ainda que, há dez anos, não consiga um emprego fixo,não perde a esperança e o entusiasmo pela profissão. Ele sobrevive fazendo anúncios nas ruas, como homem-sanduíche, e até usando aquelas pernas de pau, e de vez em quando fatura um dinheiro animando festa infantil. Explica que o último circo em que trabalhou foi o Gran Circo Caracol, nos anos 80, quando tinha outro nome artístico: Bossa Velha. "O salário era mixuruca, mas a gente se divertia e tinha prazer em fazer todo mundo rir". Ele relembra que usava sempre as piadas mais antigas e conhecidas de todos, ainda assim, "a casa vinha abaixo quando eu contava. O público morre de rir com piadas antigas".

Frigideira, que depois trocou o nome para Pescadinha, explica que as despesas para se viajar e montar um circo, a dificuldade em se achar locais onde instalar os circos, a concorrência da televisão, a falta de dinheiro e a situação econômica do país como os principais motivos que ajudaram a fechar nada menos que 40 circos pelo Brasil nos últimos anos.

"Para piorar", ele acrescenta, enquanto se prepara para ser fotografado para um anúncio de uma loja de eletrodomésticos, "como se não bastasse a falta de emprego, ainda tem muito palhaço por aí tomando o lugar da gente. Você viu quantos e quantos apareceram durante as eleições?"