|
Nosso
simpático e caloroso diretor me pediu para escrever esta
minha coluna de hoje com alguma coisa relativa à política
e políticos. Vou tentar atendê-lo, embora não
participe ativamente de política há mais de 40 anos.
Tudo o que faço hoje em dia é votar, cumprindo meu
dever cívico, como se costuma dizer. Mas houve uma época,
muitos anos atrás, em que eu participava de tudo, pregar
cartazes e faixas, comícios, passeatas e também
o que a gente chamava de saraus políticos.
Tratava-se do seguinte: um grupo de senhoras representativas da
sociedade local fazia semanalmente uma espécie de sabatina
com os candidatos a determinado cargo, no caso, os que queriam
ser deputados federais, que foi a campanha de que participei.
Então, conclamávamos um por um os candidatos de
nosso bairro para conversar com a gente e expor seus planos e
projetos.
Esses saraus, eram, além disso, reuniões sociais
encantadoras e elegantes, reunindo pessoas chamadas de fino trato,
e cada uma levava bolos, doces, salgadinhos, canapés, patês,
chás de vários tipos, todos eles importados. Ah,
que momentos tão encantadores e inesquecíveis! Que
saudades eu tenho daqueles tempos!
Pois bem, numa dessas reuniões nossas surgiu de surpresa
uma vez um moço encantador, de aparência, espírito
e educação. Seu nome eu não posso declinar
por ter ele desposado uma moça de uma das mais tradicionais
famílias brasileiras. Naquela semana, os convidados eram
todos do Partido Republicano.
Todas nós nos enamoramos dele imediatamente, assim que
entrou na sala onde estávamos. Ele queria dizer alguma
coisa, se apresentar ou algo assim, mas não deixamos, pois
cada uma de nós queria ser a primeira a lhe dirigir a palavra,
a lhe fazer perguntas sobre sua campanha política. E principalmente
ganhar dele olhares e sorrisos.
De minha parte, não tive nenhuma dúvida. Ele era
meu candidato a deputado, senador, governador o que quisesse.
Pelo entusiasmo de minhas amigas, vi que essa era também
a opinião delas.E fizemos a ele dezenas de perguntas, sobre
os mais diversos assuntos, e o jovem belo e inteligente respondia
a todas com facilidade, graça e humor. Que talento para
a política, que habilidade no trato com as pessoas, eu
pensei!
Passaram-se mais de duas horas de conversa que não cansava
nem aborrecia minhas amigas. Até que me lembrei de indagar-lhe
qual o cargo político a que aspirava. Ele fez um ar de
surpresa e perguntou: "Cargo político?! Que cargo
político?!" Então explicamos a ele a razão
daquela reunião e o porquê de entrevistá-lo
durante tanto tempo.
Ele começou a rir, mostrando seus lindos dentes, num luminoso
sorriso, e quando parou, disse: "Queridas senhoras e senhoritas,
não sou candidato a coisa alguma.Sou ator de cinema e teatro,
vim aqui procurar o deputado Camilo Alvim da Silveira para discutirmos
alguns planos da campanha dele. Eu tentei me apresentar assim
que cheguei, mas as gentis senhoras e senhoritas não me
deixaram falar. Então, a conversa ficou tão interessante
que resolvi participar e não dizer nada".
Passada a nossa surpresa, caímos todas numa sonora gargalhada.
E vou contar às minhas queridas leitoras um segredinho:
soube depois que só por causa daquele belo rapaz, todas
nós que estávamos na sala aquele dia votamos no
deputado Camilo Alvim Silveira. Que por falar nisso, não
conseguiu se reeleger.
|