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No
começo de setembro, recebi de um amigo scholar, há
anos morando em Brasília, uma simpática carta na
qual, entre eufórico e esbaforido, me convidou para vir,
às pressas, ao Brasil. "Kenny", desabafou, "você
que assistiu à glasnost e à perestroika, do Gorbachev,
na ex-URSS; à queda do Muro de Berlim, e ao sepultamento
do apartheid, na África do Sul, vai gostar de ver a aposentadoria
da direita e o fim da História, prevista pelo Fukuyama.
E tudo isso ao vivo e em cores, aqui, na terra dos brazucas".
Uma
semana depois, ainda no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, vejo
meu amigo scholar, excitadíssimo, após cumprimentar-me
com a natural euforia britânica, impossível de ser
notada por latinos, confidenciar-me, olhando para um lado e para
outro, querendo certificar-se de que ninguém mais, além
de nós dois, vai ficar sabendo do segredo: "Kenny,
aqui está para acontecer, sem alarde, aquilo que nós,
pesquisadores, tanto procuramos: o fim da História".
Andamos
alguns metros até o táxi e, antes de entramos, concluiu
a sua confidência: "Se você ficar por aqui uns
dois meses, terá a ocasião única de assistir,
após a posse presidencial, seja quem for o candidato que
vier a ser eleito, ao início da Pós-História,
no terceiro ano do 21º século da era cristã".
Percebendo o meu espanto e minha desconfiança, argumentou:
"Eu sei que é difícil de acreditar, mas é
isso mesmo: os brasileiros, com seu jeitinho, acharam um modo
de, ao mesmo tempo, acabar com a direita, com a luta de classes,
e, de sobra, pôr fim a um longo ciclo histórico no
mundo ocidental. É fantástico!, Kenny".
O
cheiro característico das marginais do Tietê por
onde o táxi trafegava em direção ao hotel
me trouxe de volta à realidade. Sem querer ser grosseiro,
perguntei ao meu amigo: "Mas, Alastair, como foi que os brazucas
conseguiram realizar tal façanha, com um nível tão
baixo de informação e de politização
da população?".
"Muito
simples, Kenny: as elites combinaram, para seduzir o eleitor,
apresentar programas de governo avançadíssimos e
candidatos que vão do centro-esquerda até a extrema
esquerda. Com tal manobra, só restou ao pobre eleitor,
que já é usado como consumidor e contribuinte pelo
governo, aspirar à cidadania". Meio atônito,
perguntei a meu interlocutor: "Desculpe, Alastair, seja mais
claro, o que você quer dizer exatamente com aspirar à
cidadania?".
"Acho
que você não entendeu a sutileza da manobra. Para
se livrar dos pedidos de cargos públicos e dos demais favores
típicos dos períodos eleitorais, as elites resolveram
premiar os eleitores com a tal da cidadania plena, que nada mais
é do que jogar os problemas sociais para o Estado resolver.
Ou seja: todos (empresários, classe média e assalariados)
contra o Estado. Por tal motivo, os eleitores estão feito
barata tonta. Já não sabem mais quem é de
direita e quem é de esquerda."
Pensei
um segundo e respondi como quem fala em voz alta, ignorando a
presença do amigo. "Mas isso é o mesmo que
ocorreu na ex-União Soviética, na era Gorbachev,
quando o governo fingia que pagava salários honestos aos
operários que trabalhavam em fábricas sucateadas
e estes fingiam que trabalhavam". "Kenny, você
é genial. É isso mesmo", respondeu-me, mais
excitado ainda, Alastair.
"Isso
é um engodo!", exclamei, mais deslumbrado que do indignado.
"É verdade", observou Alastair. "Do mesmo
modo que a glasnost (transparência) e a perestroika (reconstrução)
o foram na ex-União Soviética e nem por isso deixaram
de sepultar de vez o chamado socialismo real". As elites
brasileiras, concluiu meu amigo, entenderam depressa a lição
de Gorbachev.
Encerrada
a rápida tertúlia sociológica, despedimo-nos
na porta do hotel. Já no quarto e, após o banho
restaurador, comecei freneticamente a agendar encontros para o
dia seguinte. Como não acredito em Papai Noel, resolvi
fazer, assistido por alunos de pós-graduação
de várias universidades públicas brasileiras, minhas
próprias pesquisas de campo. Os resultados obtidos esclarecem
mais do que quaisquer ensaios sobre o tema. A seguir, passo à
consideração do leitor alguns comentários,
bastante elucidativos.
Respostas
de eleitores de zonas rurais do Sertão nordestino sobre
as eleições presidenciais: "Doutor, não
entendo mais nada. Os coronéis dizem agora que querem distribuir
suas terras! Que é que nós vamos fazer com elas?
Nós só queríamos uma cesta básica,
talvez um emprego ou, quem sabe, um jegue. Em vez disso, eles
prometem para a gente a tal de cidadania!"
Lembrei-me
imediatamente de Ricardo 3º, de Shakespeare. "Meu reino
por um cavalo!" Na versão nordestina, "Meu reino
(um imenso sertão esturricado, onde faz sol até
durante a noite e a madrugada) por um jegue!"
E
o fim da História! Ou melhor, é o fim da picada!.
Sugiro ao eleitor brasileiro, para as próximas eleições,
a criação do Serviço de Proteção
ao Eleitor (SPE).
(*)
Kenneth Goodson é brazilianista, PhD em Antropologia
Urbana pela Universidade de Oxford e autor, dentre outras obras,
de "Eleitor, Uma Espécie em Extinção".
(**)
Colaborou nesta edição Chico Forró,
da Banda de Pífanos de
Conceição dos Palmares.
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