O rato de Kafka,
a barata de Wilde

O grande filósofo guatemalteco Elfredo Muller Congoja disse uma vez que "a literatura é feita por gigantes para anões, mas às vezes o processo se inverte. O resultado é que ninguém se entende, anões, gigantes nem leitor". Lembrei-me da frase famosa quando, sôfrego, terminei de ler o último romance de Spartacus Fast, intitulado "Doce Varinia", que acaba de ser lançado pela Letras do Leitor (1.369 páginas, R$ 155, em maravilhosa tradução de Ramon Stanley Curtis Douglas).

O escritor filipino-congolês, uma das grandes sensações do moderno romance psicológico-social, está irreconhecível nesta sua nova obra.Para melhor, apresso-me em acrescentar. Eu diria que, além de irreconhecível, mostra-se também assustador, pois lança ao mundo, na mente e no coração do leitor um flamejante grito de dor e protesto que estremece até a alma. Usando o recurso do flashback interativo, intercalado com a técnica da literatura alternativa da gestalt edipiana, a mesma com que o poeta do noveau roman intimista siciliano Garofalo Ravanello revolucionou a literatura em 1954, Spartacus parece, em seu novo livro, estar tentando nos revelar algo que ele próprio não sabe exatamente o que é. Talvez o seu ego profundo. Talvez a epifania da descoberta do novo Eu. Ou seria o tormento da inspiração do intelectual, como nos mostrou o finlandês Vadelma Tumma, em seu inspirado "Housut"? Seria a duplicidade sexual e a ambigüidade da ética pequeno-burguesa de acordo com o memorável sermão setencentista do monge budista Shichi Menchoo? Seria ainda a complexa tese da crise de identidade do mundo moderno, revelada pelo alemão Worst Grau em seu monumental tratado "De Profundis Und Konversationslexikon"?

Conhecendo as complexidades intelectuais e a sutileza da mente privilegiada de Spartacus, eu diria que é tudo isso. E mais: há, é claro, não fora o autor um luminoso porta-voz pós-moderno da literatura européia oriental atual - uma contundente ida à fonte inesgotável de Kafka, que ganha releitura inesperada no capítulo 245, ao subverter a simbologia da barata pelo rato, na cena em que o personagem Deméter Ivanov Woody Strode perambula sem rumo pelos esgotos de Praga, em busca do Graal, já corrompido pela influência demoníaca da mãe de Varinia, a nefanda Margo Channing. A cena, não hesito dizer, é um dos momentos supremos da literatura universal moderna.
Oscar Wilde (citado,entre, pelo menos, duas dúzias de outros romancistas) merece do autor uma singela e sentida homenagem no último capítulo (ou seria apenas o começo?), com a inusitada citação extraída do pouco conhecido "O Charlatão e o Dândi de Pillsbury", quando o advogado demente, Jon Lovitz, investe com fúria inusitada contra a hipocrisia da sociedade vitoriana,ao dizer "entre homem e rato, fico com o último, pois não exala cheiro".

A esta altura, o resenhista e o leitor atento percebem que a mensagem do autor perpassa todo o universo literário dos últimos dois séculos. E, curiosamente, vai beber na fonte de outro gigante das letras, o dominicano Pepe Ruiz Horona e seu revolucionário "Cobijas Borrascosas".

Um romance da estatura e profundidade de "Doce Varinia" merece mais, bem mais do que esta modesta, apressada e perfunctória resenha. Pretendo compensar a falha com ensaio mais abrangente na próxima coluna. Aguardem.- L.B.