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Pela
leitura de jornais brasileiros, que me chegam com semanas de atraso
aqui em Londres, fiquei sabendo que durante a próxima Assembléia
Geral da Organização das Nações Unidas
(ONU), a realizar-se em Nova York, em setembro, mais dois países
serão admitidos oficialmente como membros dessa organização
internacional. São eles: a velha Confederação
Helvética, mais conhecida como Suíça; e o
novíssimo Timor Leste, que passarão a ser, respectivamente,
o 190º e 191º membros da ONU.
Por
incrível que pareça a venerável Suíça,
em cujo território situam-se vários organismos multilaterais
de negociação entre nações, não
fazia parte da ONU. E o Timor, última flor, não
do Lácio, mas de Portugal, à beira-mar plantado.
Só que lá do outro lado do mundo. Ao meditar sobre
esses dois extremos - os suíços talvez sejam os
cidadãos mais ricos do mundo e os timorenses os mais pobres
- veio-me a idéia de fazer o Índice Gini-Goodson.
Explico
melhor: o Índice Gini mede a concentração
de renda e da riqueza entre as nações do planeta.
Quanto menos concentrada a renda, caso dos países ricos,
mais ele se aproxima de 1. Por exemplo, Suíça, Dinamarca,
Noruega, Finlândia, Suécia têm 1 nesse índice.
São, portanto, modelos de renda e riqueza bem distribuídas
entre todas as camadas sociais: ricos, classe média e pobres.
Ao contrário, Nigéria, Etiópia, Somália,
Angola e Timor, dentre outros, têm colocações
no ranking próximas de zero.
Resolvi
então fazer uma brincadeira estatística: juntei
dados de renda e riqueza do Índice Gini com indicadores
sociais aceitos pela ONU (mortalidade infantil, expectativa de
vida, alfabetização, escolaridade, saúde,
moradia, água, luz, esgoto, número de automóveis,
aparelhos de tevê e telefones por habitante) com o das manifestações
folclóricas oficiais que constam do calendário de
todos os países do mundo.
Ao
relacionar os dados, cheguei à conclusão de que
as nações mais adiantadas em termos de renda, riqueza
e indicadores sociais são paupérrimas em folclore.
E, ao contrário, as mais pobres, em geral, asiáticas,
africanas e latino-americanas, dentre outras, são riquíssimas
em festas folclóricas e atrasadíssimas em renda
e em indicadores de bem-estar social. Ou seja, a riqueza e o bem-estar
social das nações são inversamente proporcionais
à diversidade e riqueza dos folclores nacionais.
De
acordo com o Índice Gini-Goodson, que acabei de lançar
em conferência realizada na Universidade de Oxford, em meados
de agosto, Zimbábue, na África; Albânia, na
Europa; Haiti, nas Américas; Filipinas, na Ásia;
e Papua Nova Guiné, na Oceania, são os campeões
do folclore. Nesses países, em pelo menos 300 dos 360 dias
do ano, há festas populares e folclóricas. Os 60
dias restantes são preenchidos com feriados religiosos
ou datas cívicas.
Na
outra ponta, estão Suíça, Canadá,
Austrália e Nova Zelândia. É óbvio
e vocês já devem ter reparado que não há
nações africanas, asiáticas ou latino-americanas
nesta lista.
A
falta de interesse de suíços, canadenses, australianos
e neo-zelandeses por manifestações folclóricas
em geral é estarrecedora. Na Suíça, por exemplo,
cultua-se, até hoje, um certo Guiherme Tell, exímio
arqueiro do século 19, que, segundo a lenda, teria colocado
uma maçã na cabeça do filho para cortá-la
ao meio com uma flechada certeira. Essa é a lenda. A verdade,
no entanto, parece ser bem mais prosaica.
Um
scholar helvético, que conheci na Basiléia, durante
o inverno de 1984, contou-me que a poliandria (uma mulher com
vários maridos ou amantes) era tolerada e até mesmo
estimulada durante os primeiros séculos de existência
da Helvécia, nome que os romanos davam à Suíça.
Havia dois bons motivos para tal prática: era preciso fazer
crescer a população rapidamente e o outro tem a
ver com a tradicional vocação de paraíso
fiscal dessa nação européia.
Com
a fama de neutralidade mantida nas inúmeras guerras européias
e de porto seguro para aplicação de dinheiro de
origem suspeita, os suíços atraíram, ao longo
dos séculos, todo o tipo de aventureiros para seu país.
Estes eram muito bem tratados em todos os sentidos, inclusive,
cama, mesa e banho, pelas mulheres suíças, que se
entregavam aos forasteiros, enquanto seus maridos viviam nos bosques
à caça de pássaros canoros.
Certa
vez, ainda segundo relato do meu amigo scholar, apareceu por lá
um anão chinês conhecido como Lin Pi por quem a mulher
de Guilherme Tell (Hertha) apaixonou-se perdidamente. O resultado
é que algum tempo depois nasceu uma criança loira,
de olhos azuis e puxados como os dos chineses. Talvez por brincadeira
da genética, esse menino nunca chegou a se desenvolver
plenamente, ficando um palmo acima da altura média dos
anões e bem abaixo da média de altura dos suíços.
Uma
lenda muito comum entre todos os povos do mundo é que anão
não morre. Somem, trocam de lugar, desaparecem e surgem,
de repente, em circos, picadeiros e em aldeias remotas. Há
quem acredite que eles se transformam em duendes para proteger
a natureza. Um amigo, aí no Brasil, me contou essa história,
e eu comecei a rir desbragadamente. Mas quando parei de rir, por
absoluta exaustão, calmamente, ele argumentou: "Você
já viu algum enterro de anão?"
Acontece
que lá na Suíça, na época de Guilherme
Tell, também corria a lenda sobre a imortalidade dos anões.
Havia até mesmo um movimento, em toda a Europa, favorável
à libertação daqueles horríveis anões
de jardim. Um dia, intrigado com o fato de Hans, o Curto - atenção:
não confundir com Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno
- ,filho da mulher Hertha e do anão chinês, Lin Pi,
ter parado de crescer, Tell resolveu, sem conhecimento da mulher,
levá-lo para a floresta. Sua intenção ao
colocar a maçã na cabeça de Hans era evidentemente
testar se ele era mesmo anão e, portanto, imortal.
Nos
próximos artigos, relatarei alguns casos de absoluto descaso
de canadenses, australianos e neo-zelandeses por manifestações
folclóricas.
(*)
Kenneth Goodson é PhD em Antropologia Urbana
pela Universidade de Oxford, brazilianista e autor de diversas
obras, dentre as quais O Segredo de Guilherme Tell e Da
Inutilidade do Folclore. |